31.3.26

Convicto

Ainda que solitários
entre a multidão,
estaremos divinamente
acompanhados na missão
que viemos desempenhar
no meio dela.

Casciano Lopes

Pequeno manual de edificação

Foi nas ruínas
que aprendi sobre reconstrução,
e erguendo meus casarios
entendi sobre morar neles.

Casciano Lopes

29.3.26

Outono de Dora numa borboleta

Doralinda voltou ontem...
como em 2025,
veio e voou pra casa num instante.
Vem pra matar saudade,
pra dizer o que não cabe numa frase,
pra que eu não me sinta só.
Na verdade,
acho que não cabe em lugar nenhum,
é imensa.
Nem ela e nem eu cabemos,
nessa falta.

Casciano Lopes
[Da borboleta que me visita]

Veste

Eu vou assim,
vestindo coragem
pro medo não ficar nu.

Casciano Lopes

25.3.26

Casciano na janela

Daqui
vejo a noite indo,
leva o silêncio dos cansados.
Vejo o dia vindo,
traz o som do tempo
acontecendo.
Daqui...
Sem medo amanhecendo.

Casciano Lopes

Sob voo

Calei o barulho
das ondas do meu mar,
porque me era
insuportável não ouvir
o canto das gaivotas.

Casciano Lopes

Voar, voar

Quando eu voo
com os pássaros do meu quintal,
quando a altura eu frequento
nas asas deles,
quando eu canto em partitura
o mundo lá de cima,
acompanhado com a segunda voz
escrita em penas.
Eu não quero descer.
Se desço, feito eles,
pouso nos galhos da aventura,
tentando não pesar na desventura,
e se porventura vier o silêncio...
canto.

Casciano Lopes

Cabimento da calma

Vivemos
onde a calma souber ficar,
seja numa montanha,
numa cidade
ou beira de mar.
Se somos paz,
cabemos em qualquer lugar.

Casciano Lopes

Ave

Tempo que me instala em sua passagem, tempo que beneficia minha estadia cedendo seu lugar de referência, tempo que me consome enquanto placidamente me interroga: se quero e o quanto quero ser parte dessa imensidão...
Senhor Tempo que espera minha resposta, que tão pacientemente pede provas de minha devoção, que despretensiosamente espera meu sim, que ousadamente finge que passa pra que eu fique eterno enquanto morro... tenha piedade de meus amores, tenha calma quando julgares as minhas flores, use de clemência com os jardins que caminhei.
Enquanto aqui morei querendo ficar, leve em conta que eu passei, oh Tempo!

Casciano Lopes

Meus pés de estrada

Sigo me abrigando
às sombras das árvores
que decoram minhas encostas,
e na ausência delas,
me sento ao lado de meus arbustos,
e descanso pra aprender.
As erosões de meu terreno
me ensinam a brotar,
até o dia em que outros
caminharem as minhas plantações.

Casciano Lopes

20.3.26

Hoje

Se despede o verão. Ficam pra trás os corpos suados da estação, a emoção aquecida dos dias, a aflição vivida sob o sol que também prometeu amenidades... ficam guardadas no departamento dos arquivos da capacidade, no compartimento das experiências humanas, vividas com a honra da vontade de experimentar cada dia, seja na estrada que chove, ou na tapera que enxuga a coragem de esperar, o tempo bom.
O calor cumpriu sua missão, como cumprimos nós a abertura das portas que precisavam de passagens... passamos.

Chega o outono.

As folhas fazem malas. O chão adornado serve de cama pro velho que precisa descansar. Os telhados aceitam os acenos e acolhem o passado que precisa ir embora.
A paisagem se esmaece em sépia; protege em gestação a nossa firmeza e garante a integridade de nossos ossos pro inverno que virá. Enquanto continuamos aqui, comendo das alegrias que fortalecem a calma de esperar a meteorologia de nossas ações e suas previsões, que sabem prometer cobertores, se carecer de alma, a nossa carne de viver.

Casciano Lopes

13.3.26

Corpo lento em aço duro pra ver o tempo

O tempo que se estendeu
pra que eu passasse foi gentil,
entendeu a vagareza de meus pés,
esticou trilhos pra que eu me orientasse,
e esperou, como quem espera
o embarque numa parada qualquer.

Casciano Lopes

Represa aberta

Ama mais do que pode suportar a certeza,
mais do que pode duvidar a dúvida...
Assim, arrebenta-te em amor,
e de comportas abertas alimentarás o mundo.

Casciano Lopes

Olha o trem

O que partiu já tinha cumprido sua missão.
Em mim restaram os trilhos que ainda sigo,
vez ou outra,
uma estação aparece pra que eu me refaça,
e eu me faço de passageiro perto do bilheteiro.

Casciano Lopes

11.3.26

Azuleja

Olhe o tempo que passa
e deixe cores,
antes que chova
em tuas tintas.

Casciano Lopes

A gente se perde

Quando a gente se perde nos valados dessa vida e se perde do motivo que levou a gente pra estrada, daquilo que esticou o caminho sob nossos pés; quando se perde na própria história sem fio que desate a página sem linha...

É preciso calar pra se ouvir, fugir do gemido da procura; ainda que seja pra soluçar aquela canção que a gente sabia por na mala na hora de partir pra cura de quando a gente não se perdia.

Casciano Lopes

Amor de mar quando me vê

Andei distante do mar,
não sabia que podia pensar sobre ele...
voar, aterrissar, dormir sobre ele.
Andei sem saber todo aquele mar
que corria em mim, pra mim, nunca de mim.
Não moramos na mesma rua,
mas ele mora em mim. Não somos ausentes;
apesar de que ele não dorme na minha janela,
mas acorda em mim
quando nos sentamos pra ver a distância passar.

Casciano Lopes

9.3.26

Caminho da energia

Eu vi a energia assumindo a forma de uma mulher, ela era forte e destemida, sem perder a graça da delicadeza. Ela era sábia, sem deixar de ser leve e empática, e gentil, sem esquecer o pulso firme das ações. Eu vi a gratidão antes da reclamação, o sorriso antes da lágrima, o sim antes do não.
Então aprendi: não posso dizer que não, seguir é a única opção. O fluxo é liberado se eu enfrentar a direção que o riso mostra. O choro embaça a visão e obstrui a mão.
Persistir carrega a incrível chegada. Desistir traz a vergonha de não chegar a lugar nenhum.

Casciano Lopes

A vida que atravessa

Estamos todos cruzando pontes,
o outro lado depende da passada,
da pisada leve no trecho penso,
da firmeza no suspenso vazio da interrogação.

Casciano Lopes

Opção

Se a gente não acreditar no melhor,
a situação pode nos fazer
ser o pior dos mundos.

Casciano Lopes

De medos também era eu

Só era eu...
Medo eu tinha de atravessar aquela rua,
de morar naquela cidade,
de dormir naquela casa,
de enfrentar aquela gente,
de ouvir aqueles teares
que ditavam o ritmo do meu cansaço...
medo tamanho pro meu corpo pequeno,
corpo trançado de tramas e urdumes de destino.
De grande, só a coragem medrosa,
ainda assim coragem.
Virei tecido fino de cobrir
os caminhos que me assustaram.
Pra uns sou bem vestido...
Não sabem onde morei
e não conhecem de onde vim.

Casciano Lopes

6.3.26

Banca de jornal

O jornaleiro da esquina
não vende um caça-palavras
que tenha a palavra que procuro.
Quero a que sem alarde,
cale o discurso da minha ignorância
numa palavra.

Casciano Lopes

Há silêncio

Há de passar o que penso;
e o que pensei de mim,
deixará o vazio dizer
tudo o que não pude ouvir.
Sossegai ondas do pensamento,
clamai às areias que piso
para que eu absorva a fúria do mar,
sem deixar de aprender
a calma de sua orla.

Casciano Lopes

Ajuste das cadeiras

Aprendi dançar a cura de minha dor quando ofereci perdão ao meu passado.
Enquanto não mediquei os sentidos com passos alegres, chorei os atrasos dos relógios daquela época, lamentei as palavras ditas mais que os contos davam conta de dizê-las, julguei a culpa e sacrifiquei a sala de baile de meu pensamento.

Ainda ensaio pra dizer ao tempo que sei que vou passar...
Só quero a música mais alta que o barulho da locomotiva que me leva.

Casciano Lopes

1.3.26

Cartomante

Amanhã está num lugar que não acesso,
sou vidente do hoje,
ainda ontem aprendi isso.

Casciano Lopes