Eu sempre ganharei tempo andando com aquela garça que vi na beira da praia. Ganho todo dia, quando vou junto no sopro ventado naquela areia de um fim de tarde daquele tempo. Nunca perco partida, quando me atraco com aquelas pequenas embarcações pregadas no mar, ou com as canoas brincando de margem sem pressa pertinho de mim. Se coube aquela gente em sol, a luz que batia na água, e a cantoria das ondas, escondidas no meu olhar... Ainda cabe, sempre cabe... tempo em bom estado de tempo.
Cuidado para não discorrer sem muita propriedade por um caminho que você não percorreu. Antes de fazer um discurso que replique o que ouviu sem conhecimento, pesquise de forma isenta a história que você não viveu. Tenha atenção com falas inflamadas, atacando realidades que não são as suas. Se você não tem lugar de fala, tenha no mínimo empatia, ou será reconhecido apenas como um idiota, não como inteligente. Discursos de ódio só te colocam na turma da falta de argumentos, e por si só, isto te reduzirá a insignificância. Quem tem mesa farta, nada sabe sobre fome, e isto, não é só sobre comida. Oportunidades... Já ouviu falar? A coerência não pede comida pronta, ela espera apenas que você não ouse tirar o prato que aguarda a semente plantada crescer.
Se sobreviver aos sustos, quero ir ver o mar com o meu Bem. Se me levarem lá, eu vou ver o mar. É, tenho me assustado, pra combinar com o mar que vive assustando. Neste ano ciclos se fecharam, findo o ano como quem nasce, não como quem morre na praia, não como quem finda sem ver o mar.
Não fosse o que me guarda, talvez não tivesse suportado as perdas; do meu movimento, e o das pessoas que passaram por mim em tempo breve. Não fossem os que me sustentam: mentores e guardiões, xamãs, elementais, mestres ascensionados, auxiliares encarnados que me amparam na evolução, e os que me protegem além do véu. Não fosse a guia de conduta... Eu nem aqui estaria, não fosse a divina dimensão, a que acesso por inteira convicção de sua força; que mais que a minha, conhece o norte da cura, enquanto eu, muitas vezes só descubro o sul da dor. Depois de 10 anos de SCA, e de quase 7 de coração sobrevivente, ainda me sinto um navegante em mar nervoso, mas orientado pela bússola dos que sabem o melhor caminho, e eu só preciso manter a cabeça fora d'água, no demais, é continuar mais agradecendo que reclamando, sabendo que eles me sabem.
Que haverá com o Tempo? Desconfio que ele anda em parceria com o amor, acelera e freia, ralenta e depois corre, finge de que é esquecimento, e depois nos assusta numa fotografia de parede. Acho que anda flertando com a saudade, até se mistura com ela. Se fundem nos segundos pra parecer só tempo. Tempo. Escorrega do pulso da gente pela manhã e, depois, sem aviso, badala no sino da tarde da igreja, deixando atordoada a noção das horas no nosso bolso de guardar relógio. Ele é assim... passa sem que o vejamos, depois confunde as lembranças nos trazendo memórias, provando que passou por ali.
Mãe, faz 6 anos hoje que o Tempo levou a senhora pra amar fora daqui. Seu amor ainda ressoa feito sino na minha rua, os meus ponteiros nunca mais me disseram a verdade... parece ontem, parece hoje, no mesmo dia. Num mesmo tempo. Sempre achei que falávamos muito, e tudo. Agora não, faltou tanta coisa pra te dizer!... Não fosse o Tempo, eu diria.
E de repente... o cinza passa a valer tanto quanto a cor vibrante do amarelo, o azul pede emprestado o lugar do branco, eu já me misturo aos tons; tenho nuances de quem vira arte. O céu que me abriga vira opção pros pés, a rua em que me deito se transforma em casa de portas abertas, e a noite que usa lanterna me diz que amanhã eu chego lá.
E em questão de uma virada de ponteiros, se estabelece uma nova direção.
Muda-se a estação dentro de um mesmo dia; vale pro tempo que se faz na minha janela, pro trem que me carrega, e pra frequência do rádio lá da minha parede. O que me transporta de um lado pro outro; desvia e muda roteiros, cria paradas, absolve lugares, e castiga fotografias que a memória guardou.
Eu só queria ter a força que o vento tem quando sopra uma folha do chão, sem perguntar porque a árvore a derrubou, porque secou. Eu só queria andar a rua que me corta, sem questionar as paralelas que não quiseram cruzamento, porque não cruzou. Eu só queria a chuva que escorre sem medo de se perder no mar, e eu sem medo de ser quase um oceano na calçada, chover.
Aquele abraço atrasado, o sorriso guardado, o pedido trancado, o ouvido apressado, o beijo laceado... Se só te restasse um dia, talvez a mesa estaria cheia, a cama ocupada e a mágoa vazia.
Quando choveu pela primeira vez lá onde nasci, entendi pra sempre que nada é tão limpo que não precise de água. Sou alguém que não passa impune pela poeira, fico impregnado. Quando vejo a fogueira, fagulhas me atiçam, quando venta, meus cabelos se desconectam, e se planto ou colho, minhas mãos em terra pedem água... Água, a que me banha de tardezinha, e a que me desmonta na chuva desavisada. Sou atingido pelo mundo porque estou nele, luz e sombra andam em mim porque preciso conviver com as duas, até que se apague em mim a chance de entender isso.
Eu me prometo, não o dever cumprido. A travessia que cruza a ponte rindo, sim. Prometo cumprir só o arbítrio da risada, que ri do que espera a lágrima.
Hoje, no parto da vida, reparto com cada um, a alegria de ver nascer mais uma possibilidade; a realização de chegar aos 56 anos, e ainda se sentir um lugar possível, apesar das dores conhecidas em qualquer nascimento. O 'Amor é filme', tema tão bem escolhido pra esta ocasião, não poderia resumir melhor o significado da data, onde celebrei não apenas a lembrança de outubro de 1970, mas a eficácia do amor como regra de conduta em todos esses anos... em cada nascimento, renascimento, e aposta de que amar é um ato de coragem. Ao meu grande amor Carlos Lopes, parteiro oficial de meus momentos na vida, minha eterna gratidão, por mais uma vez ter me feito especial, ter me garantido um lugar no berçário dos que são capazes de nascer na resistência. Beijos aos que se lembraram da minha natalidade, e que me mimaram de alguma forma feito em colo.
Tinha planejado muita coisa para o fechamento do meu 8º setênio. Afinal, foram 8 ciclos de 7 anos de momentos impactantes e igualmente importantes. Mas planejei tantas outras coisas nesse tempo... não foi a primeira vez que precisei recalcular a rota. Restou um balanço interno de tudo que pude fazer nessas cinco décadas e seis anos, e foi muito! Daria para rodar um longa metragem, ou alguns, já que às vezes sinto ter vivido algumas vidas nesse meio século e fração desta. A foto inspirada nos cartazes dos filmes da minha geração, de criação do meu amor Carlos Lopes, fazia parte do convite para a festa que serviria de locação para o elenco convidado se encontrar numa confraternização de lançamento do meu filme. O tema 'O amor é filme' foi o escolhido, porque acredito que o amor é antes de mais nada, o motivo da vida. Uma tarde em Hollyood era uma brincadeira que aproveitava o tema, o estilo do cartaz-convite e o fato de morar no Jd. Hollywood SBC (também a cidade que abrigou, por décadas, os estúdios Vera Cruz do cinema nacional). Enfim, de tudo, restou sim a certeza de que o amor é filme. E meu elenco composto de familiares e amigos, segue atuando nos meus takes, abrilhantando a tela grande do meu cinema. Agradeço aos aplausos, e ofereço o 'Oscar' a todos os que não abandonaram o meu set. O "Amor é filme" continuará sendo rodado, suas adaptações e novas versões ganharão o lugar do que virá, o 9º setênio só está na primeira cena. Sejam todos convidados especiais, sempre! Exibição em um 03 de outubro perto de você.
Duvidei que eu fizesse aquela curva, mas fiz. A direção me desafiou, o freio quis parar a rotação de meu motor inúmeras vezes. Mas por saber que caminho se faz caminhando e por entender que a linha reta nem sempre constrói melhores destinos, aceitei o desafio. E ainda enfrento minhas lonjuras, seja em aclives, declives... ou curvas.
Às vezes me reconheço no espelho d'água, retoco a lágrima que caiu, enxugo o pranto. Outro dia, me olhei no reflexo da vitrine de um empório, quase não me reconheci; me perdi entre o que se exibia, sequei o canto do choro que não caiu. Ainda ontem, precisei olhar mais de perto o que dizia a idade do que escondia meu jeito de marejar as palavras guardadas. Ficamos encharcados... Eu e o espelho lá de casa.
Sabemos que embarcamos na vida sem regresso, sem a possibilidade de ré. Somos o objeto da ida, em curso contínuo, em movimento de envio. E o tempo bilheteiro da nossa viagem, que nos dá a passagem, que liberta a estrada pra que passemos, e que nos conta em algum momento de sua infinitude, é que saberá dos nossos progressos quase finitos, já que o que fazemos, é de alguma forma definitivo. O avanço não oferece garantias, mas não convive com o retrocesso. Eu desconfio que o passado perdeu a casa em mim, e o futuro terá cama feita onde eu estiver.
Bordamos o tempo todo a arte dos caminhos que caminhamos. Na elegância das cores registramos a nossa passagem, deixamos em cada ponto o nosso rastro. Entre direitos e avessos encontramos erros e acertos, chegadas e partidas, abraços e despedidas, entrelaçamos o poder e o querer desafiando o tecido, e retratamos, nas paredes do nosso mundo, o nosso retrato. Na duração de uma paisagem, ou nas mãos da eternidade, ficará tingido o fio que passamos, o tinto do olhar que doamos ao pano da existência. Existamos, é o plano.
Talvez porque vi minha mãe dançar nos bailes da casa da Da. Terezinha, traçando passos, rezar terços e novenas, cantando fé, pular fogueiras e virar comadre causando laços. Talvez porque seu colar de strass, em forma de triângulo, tenha me admirado, sua calça social, verde oliva, de tergal da década de 70, tenha me investido, e seu brinco de pressão e seu sutil batom, me falado de discrição. Talvez... Mulher chamada pra matar cobra e frango, pra abanar e torrar café, pra apanhar algodão, pra pilar colorau, pra fazer pão, queijo e pamonha, pra fazer fogo e operar fogão de lenha e forno de barro, ferver roupa de roça, quarar o branco no anil em grama e estender em arame farpado, mexer taxo de doce de leite, embeber pavio em querosene pra dar luz à lamparina... Mulher que banhava e, que de 'trim' nas mãos, aprontava crianças pra benzedeira, enquanto cantava em voz sextavada o mundo que cabia ali. Talvez por ter visto como menino de sorte, tudo isso, assim como Santa Luzia no quadro da sala, que via com os olhos nas mãos, tenha me tornado um homem de poesia capaz de sentir saudade.
Me observam... as árvores me olham, as maritacas me gritam quando passo, o chão me vigia, a tarde me espera pro chá. O mundo que me vê anda pra que eu o aprenda. Ele já me entendeu.
Vou viajar o tempo todo, correr extensos campos, ver desertos e oásis, conhecer os vales, subir aos cumes, andar sobre riachos, fotografar os faróis, sentar nas escadarias, escrever as avenidas, desenhar os trilhos... Rir no circo, para o circo, chorar só o necessário, parar o quanto preciso, dentro de mim, reconhecer.
Todos temos muros... nos cercam, nos dividem ao meio, nos atravessam, nos separam, nos impedem. Passamos por paredes sonhando a liberdade, encontrando nelas fantasmas vestidos de vontades, querendo ser senhores, esquecendo ser vassalos.
A porta vai estar sempre aberta. Haverão janelas esperando colibris. Há de brotar o meu jardim... Passarinhos irão cantar tudo o que acredito. Ainda sou semente, sei. A chuva é questão de tempo.
Não sei se foi saudade, se foi pura maldade do tempo que a levou. Saudade, não sei se foi, sei que a sentia toda, não sabia que a idade do relógio já tinha saudade, e que eu já fugia das horas que eram . Hoje, metade de mim é saudade, a outra vive... sem pulso. Ela se foi.
Era tudo mais simples. O riso era mais solto, a televisão ficava em casa
emprestada, e a gargalhada... livre, sem compromisso, como era a hora, sem pressa. Tudo era eterno, até quem passava em mim, o fazia devagar no meu tempo. E se hoje, divago por ele, é porque de nada foi emprestado. De vago só ficou o que não sabia... que sem saber, eu corria.
O espelho cria faz chover no sertão faz nuvens na imensidão faz açudes pra nossa sede mia pra nossa estimação é um mar refletido onde nadamos nossa embarcação.