22.11.22

Porque era morro de Marias

Lá no morro
que disseram pertinho do céu
tem Marias...
É céu!

Numas casinhas frágeis
de remendos coloridos moram tanques,
onde se cantam preces...
É céu!

Nas ladeiras
que brincam de alforria tem mesas
compartilhadas de desafios servidas por Marias...
É céu!

Nas camas deitadas,
amontoadas em chão penso,
rezam toda noite as mães que,
sim,

porque é morro,
estão pertinho do céu
onde vivem Marias...
É céu.

Casciano Lopes


20.11.22

Lucro em exposição

Fui juntando dos anos,
os bons retratos que vi...
Hoje a galeria tem ganhos
e já prepara molduras
pra caberem os dias
que ainda se ganham.

Casciano Lopes

Impulsão

Posso conter uma vontade,
mas não o que a gerou.

Casciano Lopes

Convicção de calçamento

A calçada vê a rua
e pensa
que pode conter o fluxo;
e por pensar, pode.

Casciano Lopes

Na luz do dia

As tardes contam
o que as noites precisam saber
antes de amanhecerem.

Casciano Lopes

Entre por dentre

Há sempre um sol querendo entrar,
só precisamos entender as árvores.

Casciano Lopes

A elegância devagar

Por um suspiro de olhar
a gente aprende a acalmar
a deselegância de passar sem ver.

Casciano Lopes

Quando me acendeu eu não entendia nada

Sempre quis ter um sol só pra mim,
e ele é de todos;
mas entendi depois do querer,
quando ele rasgou meu olhar,
que naquele instante ele era só meu e,
desde então,
me acendeu um jeito de luz
que guia meus passos 
até quando fica tudo nublado.

Casciano Lopes


Apesar de...

Vi amigos com dores rasgadas
que eu não sabia costurar.
Vi mestres do amor sofrerem de uma profundidade
que eu não sabia mergulhar.
Vi medos se tornarem hóspedes da minha casa
sem que eu os tivesse convidado.
Em tudo isso vi uma fragilidade capaz de força,
uma capacidade de entender que a vida acontece
mesmo sem as respostas e que as perguntas muitas vezes,
não passam de uma chuva que molha,
mas que também lava as certezas, afinal,
não viemos só pra responder,
mas pra entender o que não cabe palavras,
mas que tem que caber a vida comprimida
entre o estar aqui e o não ser daqui.

Casciano Lopes

10.11.22

Fluência necessária

O silêncio
que a gente
numa hora se permite,
abre pauta
com o sol
e fecha acordo
com a iluminação.
A verdade
tem mania de ser calada
e geralmente
nosso corpo de morar
tem mania de entender
o que não precisa ser dito.

Casciano Lopes

Tempo mudo e o que muda

Meu silêncio tem umas praias desertas
com coqueiros cantando ao vento;
Tem o mar açoitando a costa
e o sal brincando com as conchas na areia ao sol.

Meu silêncio...
Feito casinha de campo no meio do mundo
tem uma chaminé que fala de café defumado
ao ouvido quieto de ouvir passarinho acordar.

Resmunga com as bananeiras cantoras do terreiro
só pra ver se mandam de volta umas palavrinhas
com as folhas onde escreve sem alarde
o calado verso que faz saber... Silêncio.

Casciano Lopes

7.11.22

Chão de hora

Esperar requer movimento,
toda espera
gosta de passos circulantes.

Casciano Lopes

Casa de lona

Foi flertando com o riso
que casei com o circo.

Casciano Lopes

Sentir exibido

Porque amor a gente exibe.
O que fica guardado em caixinha
é palito de fósforo.

 Casciano Lopes

Ainda pulsa

Será manhã,
tarde,
noite ou madrugada?
Nunca importa
que horas são em nosso dia,
o compromisso é com o pulso
e ele sabe das horas...
Eu não.

Casciano Lopes

Em face

O que viemos pra fazer
ainda nos dirá sorrindo
sobre os dias em que choramos.

Casciano Lopes

Contra térmico

Logo ali
sei que mora
um calmante
que põe a dormir
toda febre
que vive aqui.

Casciano Lopes

Escorregador planejado

Eu brinco
pra que atrase
o fechamento do parque.

Casciano Lopes

Brincantes

Não há dificuldade
e nem maturidade
que impeça o homem
de brincar.

Casciano Lopes

Passageiros

Eu vejo um tanto de rio caminhando,
mas também vejo nele vidas viajando;
peixes,
plantas aquáticas,
galhos despregados das árvores,
minúsculas pedrinhas e grãos de areia
e aí posso me ver levado e lavado
por águas e que isso é viver...
Correr pro mar,
enxaguado e disponível pro rio,
então eu rio.

Casciano Lopes


1.11.22

Toque de pele

Viajei por mim e encontrei uma selva, descobri umas árvores de troncos robustos escondidas em minhas costas e outras pequenas que pareciam arbustos em meus braços, pedi licença; juntei tudo e brinquei de perfumista, de cócoras na grama de meu chão e usando a água do riacho que brotava de meus joelhos comecei testar fórmulas, fui experimentando os ingredientes que brotavam de meu rosto que ventava entre as folhas e fui maçerando a mistura com meus pés que já se confundiam com raízes. As montanhas cortadas de coragem por estarem reclusas em parceria com meu peito afoito por lançar fragância, compunham sol pra sobrevivência da esperança toda verde do entorno...
Foi quando meus dedos tocaram minha forma e despertaram nas minhas mãos um aroma amadeirado, uma fórmula capaz de tocar a vida fechada na mata em que eu era um desconhecido, agora não mais só, sigo quase um conhecido, mas perfumado de mim.

Casciano Lopes

Acampamento do riso

Aprendi sorrir chorando;
era um incômodo danado
verter por narinas uma tristeza
que só borrava meu jeito
e que acampava um nevoeiro na visão
que praticamente me escondia os lenços.

Casciano Lopes