18.6.10

Pérolas

Juntei no bolso de passear,
A canção de ninar de criança,
Os irmãos paridos e inventados...
Quantos bolsos costurei?
Quantas importâncias que fiz?
Peguei na mala...
Uma canção,
Meu amor na partitura,
Juntei a Parideira Rainha,
E saí pela estrada da Fazenda Sinhazinha
Com os bolsos cheios de pérolas.

Casciano Lopes

17.6.10

Carlinhos

Todo o dia.
O dia todo.
Toda a vida.
A vida toda.
Toda a lua.
A lua toda.
Todo o tempo.
O tempo todo.
Todo o amigo.
O amigo todo.
Todo o homem.
O homem todo.
Todo o intenso.
O intenso todo.
Todo o Carlos.
O Carlos todo.

Casciano Lopes.

Viagem

Sentado num canto de pensar viagem
Perdeu as malas no banco sentado de abotoar casacos
Perdeu os botões nas malas de pensar viagem
Esqueceu o banco sentado e viajou sem malas e casaco.

Casciano Lopes

Muita sede

Sou só alguém com sede de tantas águas que não provei,
Umas por serem salobras,
Outras adocicadas demais,
Importunando o diabetes da alma,
Outras por não estarem ao alcance das degustativas
De minha carente vontade de sabores.

Casciano Lopes

Outro

A poesia é mantida a terceiras sensações
Vem do outro a manivela para moer o sentimento
Espremendo na ponta dos dedos as palavras caprichadas
Os enfeites das vírgulas e seus pontos são cedidos
Pelo olhar atento de quem observa a vida com pele sensível.

Casciano Lopes

Poesia

A poesia é como um cachecol vermelho
Que embalamos o pescoço
Todos que passam, de longe enxergam
No entanto nos aquece apenas o meio do caminho
Entre o coração e a mente
Deixando todo o resto congelado no si mesmo.

Casciano Lopes

Fábrica de saudade

Uma vózinha toda linda
Vestindo vestido de chita
Lenço verde na cabeça
Acetinado de esperança
Um barrigão de quem sabe
Por fermento em sua massa
Um avental de xadrez miúdo
Um tamanquinho de tamancar
Relógio de marcar ausência
Ela no fogão de lenha
Faz mistura milagrosa
Com horta do terreirão
Do quintal de esperar...
Lá da sala de causos
A vitrola de "rancho fundo"
Em companhia solene
No soluço acompanha
Em segunda quase terceira
Sua receita de caldeirão
A delícia da paciência
Coração vira cozinha
Faz fogão a tal vózinha.

Casciano Lopes

Acreditando



Quero acreditar que a vida reserva mais que sabor no doce da vitrine,
Que atrás do muro tenha mais que entulhos,
Que a avenida traga mais que buzinas nos seus carros,
Quero crer que a noite tenha mais estrelas do que magos,
Que a lua possua mais que um habitante e seu cavalo,
Quero pensar que os loucos compartilham comigo
Das idéias do mundo novo,
E que de louco tenho muito e não pouco.

Casciano Lopes

À sombra

Se da árvore vier o fruto
Que do fruto a semente espera,
E se da espera cantar as gotas
Ao bater na folha morna,
E o sol tocar de leve
A raiz verde por brotar,
Quero encontrar sentado a sombra
O fruto quente
Maduro vindo da terra,
E que ela abrande a folha
E toque macio sua cor
Caída aos pés de quem descansa.

Casciano Lopes

Tímido

Quero entender a noite como um momento,
Como um sentimento à flor da terra,
Como um querer devagar,
Quase não deixando e permitindo,
O encostar de disfarçar vontades.

Casciano Lopes

16.6.10

Quis
Um apito só
Um só
Um assobio
Quis
Fiz só
O assobio
Esvaiu-se
Quis
Fiz só.

Casciano Lopes

Desnecessário

Põe na bolsa só um lenço,
Nele escreva,
Dele faça tenda,
Enxugue a bravura da face,
Recolha a água da alma,
Da chuva.
É só disso que precisas...
Só do lenço,
Todo o resto desnecessário,
Lenço e ópera.
A vida só pede isso,
O demais se sepulta.
A ópera te leva ao céu,
O lenço te traz de volta.

Casciano Lopes

Semelhança

O homem é como qualquer erva...
Nasce
Cresce
Morre
Só isso...
Qualquer acréscimo,
É pura ignorância.

Casciano Lopes

Matando a sede

Olha quem desce. Veja lá quem vem...
Desce bamba com o peso na cabeça
Vem a lata em cima da mulata
Desce o corpo embaixo da lata.
Sobe e desce os peitos da mulata
No balanço das cadeiras, lata judiada
Cadencia mulata, curvas e ancas
Sua lata mulata samba na cabeça.
Joga a água fora da lata, deixa escorrer
Mistura ao suor sua água da lata
Desce molhada mulata com a lata
Se torce e contorce para manter a lata
Cheia de graça a lata desce cheia
Vem pra reta, pra rua, sua mulata
Vem pra casa matar a sede
Chega a lata debruçada sobre a pia
Mulata sobre a cama sua toda sua água.

Casciano Lopes

15.6.10

A Bandeira

Na luta de uma bandeira
O emblema da mensagem se esforça
Para ficar nítido durante a chuva
Viçoso sob o calor
Legível na ventania
E tremulante na noite escura
A bandeira não descansa
Pois está impregnada por seus ídolos
Heróis e mitos do passado
Se levanta no mastro imponente como quem tem o que contar
E se desce de lá...
É para ser moldada em dobraduras
Nas mãos do patriota que a dobra
Como quem fecha um livro de memórias familiar
Do qual não se deve amassar as folhas
Ou amarelar as letras
As quinas são bem feitas como ruas de uma pátria
Com todo o cuidado como que para não ferir
O que por elas passaram nas passeatas
Com seus gritos e palavras de ordem
Às vezes em gavetas bem guardadas
Guardam para si toda a gente
Toda a dor e alegria de uma nação
Um papel que um dia vira tecido
Vira símbolo
Vira peito
E sonho bem no alto estacado
No mastro a bandeira que é do povo
Tão povo que o vento ruge
O sol aquece
E do mastro só desce
Para guardar história.

Casciano Lopes

Receita

Bata como clara em neve
Misture como receita de bolo
Gire
Vire
Dependure feito parque
Vista como manequim
Desvista
Como lavadeira
No tanque
Cheire como rosa
No jardim
Vidre
Hipnotize
Vitrine limpa
Perca a hora
Sem relógios
Sem prejuízo
O sexo que basta.

Casciano Lopes

Selvagem

Vi banida da Terra uma cachorra chamada "Baleia"
Um caranguejo na areia espetado por um selvagem
No horizonte do mar uma outra baleia engoliu vivo um menor
Um pardal inofensivo beliscou até a morte uma minhoca
Que não menos selvagem outrora se empanturrou de vermes terráqueos
Que selvageria...
Até a "Baleia" nordestina ajuda selvagemente
A devorar um papagaio nordestino e magricela em fuga
É selvagem toda chama a esturricar mosquitos em voo
Toda a vida vinda à tona
Todo globo dividido em dois terços de pura maldade
E uma selvagem sobrevivência.

Casciano Lopes

O trem



Correu as plataformas como objeto deixado
Assistiu cada trem chegado
Com olhos rápidos conferiu cada assento ocupado
Em frações se sentou em cada vazio
Vago, vagão, vaga cada pensamento saudoso
Lembrou de tudo em cada partida de ferro
Chamegando o esfregão no trilho de correr trem
Salgou as faixas amarelas
Aprendeu o dialeto resmungão dos pombos
Dependurados nos fios de alimentar trem
Visitou cada bilhete jogado
Cada banco requentado
Os olhares do guarda de guardar trem
Os guardados dos achados e perdidos
Ensaiou os anúncios dos horários
Escreveu seus recados em cada canto estacionado
Em cada parada da linha de correr trem
Em cada estação de estacionar trem
Na multidão esfregou o queixo
Nos cangotes suados do horário da tarde
Procurando o seu trem de cheiro
O seu carrilhão de vagões chamegantes
Correu... Correu... Tudo nos dormentes
Ai, que não quer adormecer
Enquanto não encontrar o trilho
O trio de trilhar seu trem caipira
De brinquedo ou não...
Apareça para que desapareça da estação
Já quase um pombo saudoso do caminho de casa
Um perdido solitário.

Casciano Lopes

Feito música



Apesar disso tudo...
Faço parte do seu barulhento coração
E você de cada minuto orquestrado
É fanfarra as vezes... Adiante sinfônica
De pandeiros a harpas tocamos tudo
Ouvimos Strauss a luz de velas
Mas fomos destaque da Rosas de Ouro
Descompassa a cadência, sem nosso toque
Se não uivamos como cuícas, morre o samba
Choram as alas, sem nossa bateria
Como violino bacharéis, são nossos pés no destino
No sopro tocamos os ouvidos
Acesos ao som do nosso amor
Se arrastando em um vanerão
Repicando um reco-reco
Desfilando um cordão... Um cordel.
Somos culturas, Paranás e Cearás
Estacionados em Sampa
Somos dois, somos um
Somos a valsa da formatura
Somos os anos do casamento
A criatura do enredo
A composição, o xote, o Gonzagão, o Gonzaguinha
Somos eternos...
Morre tudo, não o amor composto feito música
Não o arranjo de um anjo
Não nossos barulhentos corações.

Casciano Lopes

Palhaço Risonho

Vou levado pelo tempo para longe daqui
Na mala coloquei a saudade do que ficou
E a curiosidade do desconhecido
Deixo no vento as más recordações
E os lamentos de dias ruins
Vou cercado de sonhos e ambições
Coração vai pequeno pelo que fica
Mas grande na vontade de construir um futuro brilhante
De tudo o que me ensinaste
Levo principalmente a graça e a felicidade
Que senti nos bancos do circo
Deixo um abraço aos companheiros "Feliz" e "Fanfarra"
Um beijo nas meninas da praça
Lembranças ao elefante "Pé de Pena"
O meu cachorro "Piloto", te deixo como amigo
E se ele ficar triste com minha partida
Conte-lhe as histórias das viagens do circo
Aquelas que me contavas ao lado do carrinho de pipoca do tio Chiquinho
Como você me ensinou levo canções nas linhas do coração
Sorrisos das noites juninas
Batalhas e conquistas com meus irmãos
Travessuras guardo como mantimento no celeiro de lembranças
Para que nos dias tristes eu me abasteça de risos de um tempo feliz
Do choro, não tenho medo
Pois lágrimas que descem salgadas aos cantos dos lábios
Conservam doce a saudade
Quanto a você, se cuide palhaço Risonho
Companheiro inigualável... Não chore!
Pois o choro de um palhaço
Pode borrar a face pintada de coloridos alegres
De um lado da vida que eu não posso esquecer.

Casciano Lopes