Duvidei que eu fizesse aquela curva, mas fiz. A direção me desafiou, o freio quis parar a rotação de meu motor inúmeras vezes. Mas por saber que caminho se faz caminhando e por entender que a linha reta nem sempre constrói melhores destinos, aceitei o desafio. E ainda enfrento minhas lonjuras, seja em aclives, declives... ou curvas.
Às vezes me reconheço no espelho d'água, retoco a lágrima que caiu, enxugo o pranto. Outro dia, me olhei no reflexo da vitrine de um empório, quase não me reconheci; me perdi entre o que se exibia, sequei o canto do choro que não caiu. Ainda ontem, precisei olhar mais de perto o que dizia a idade do que escondia meu jeito de marejar as palavras guardadas. Ficamos encharcados... Eu e o espelho lá de casa.
Sabemos que embarcamos na vida sem regresso, sem a possibilidade de ré. Somos o objeto da ida, em curso contínuo, em movimento de envio. E o tempo bilheteiro da nossa viagem, que nos dá a passagem, que liberta a estrada pra que passemos, e que nos conta em algum momento de sua infinitude, é que saberá dos nossos progressos quase finitos, já que o que fazemos, é de alguma forma definitivo. O avanço não oferece garantias, mas não convive com o retrocesso. Eu desconfio que o passado perdeu a casa em mim, e o futuro terá cama feita onde eu estiver.
Bordamos o tempo todo a arte dos caminhos que caminhamos. Na elegância das cores registramos a nossa passagem, deixamos em cada ponto o nosso rastro. Entre direitos e avessos encontramos erros e acertos, chegadas e partidas, abraços e despedidas, entrelaçamos o poder e o querer desafiando o tecido, e retratamos, nas paredes do nosso mundo, o nosso retrato. Na duração de uma paisagem, ou nas mãos da eternidade, ficará tingido o fio que passamos, o tinto do olhar que doamos ao pano da existência. Existamos, é o plano.
Talvez porque vi minha mãe dançar nos bailes da casa da Da. Terezinha, traçando passos, rezar terços e novenas, cantando fé, pular fogueiras e virar comadre causando laços. Talvez porque seu colar de strass, em forma de triângulo, tenha me admirado, sua calça social, verde oliva, de tergal da década de 70, tenha me investido, e seu brinco de pressão e seu sutil batom, me falado de discrição. Talvez... Mulher chamada pra matar cobra e frango, pra abanar e torrar café, pra apanhar algodão, pra pilar colorau, pra fazer pão, queijo e pamonha, pra fazer fogo e operar fogão de lenha e forno de barro, ferver roupa de roça, quarar o branco no anil em grama e estender em arame farpado, mexer taxo de doce de leite, embeber pavio em querosene pra dar luz à lamparina... Mulher que banhava e, que de 'trim' nas mãos, aprontava crianças pra benzedeira, enquanto cantava em voz sextavada o mundo que cabia ali. Talvez por ter visto como menino de sorte, tudo isso, assim como Santa Luzia no quadro da sala, que via com os olhos nas mãos, tenha me tornado um homem de poesia capaz de sentir saudade.