23.2.23

Bél para os íntimos

Belguimon, passava a vida entre a existência da palavra dita e a persistência da calada.
Compunha em folhas de arbustos suas canções, e cantarolava na grama pra testar o retorno.
Temeroso, fugia do grande público.
Elas persistiam em silêncio, as palavras já musicadas... Ressentidas palavras que queriam existir mais que insistir.
Até que um dia, os olhos descuidaram-se, as letras todas juntas, escalaram as cordas e precipitaram-se vogais, juntaram-se e pelos olhos vocalizaram-se, disseram todo o calado segredo e desde então, a vida passou a ser mais persistência que existência e assim, mesmo quando finda, finda muda...
Mas dita.

Casciano Lopes


Imagem: Criação Carlos Lopes finalizada por IA






Tudo ou nada

Querer não te coloca num lugar menor,
não querer sim,
te apequena pra caber no nada.

Casciano Lopes


Prece de mãos

Não é o santo que define o milagre,
é como você lida com a angústia
enquanto ela está nas suas mãos
pedindo socorro.

Casciano Lopes


Toma lá dá cá

Sim,
há o que rouba o riso.
Mas também há o motivo
de tomá-lo de volta.

Casciano Lopes


Samba da vida em apoteose

De modo que a vida é um grande carnaval,
são tantos quesitos e jurados;
mas ao final importa mesmo
ter cumprido o tempo regulamentar
na grande avenida, tocando a alegria,
cantando o desfile de ser
da harmonia um grande carnaval.

Casciano Lopes


Elementar

Troca não é doação,
magia não é mágica superficial,
acreditar não é mera crença
e estender a mão
vai além do cumprimento.
O 'conte comigo'
não existe sem disposição
e a vida pede mais que receitas,
ela exige vara de condão
e o encantamento só desabrocha,
se a gente trouxer nas mãos
o botão.

Casciano Lopes


Ela é chama que transmuta

A bondade
não pode ser coisa de outro mundo,
ela não pode ser favor
e não deve ser mérito possuí-la.
Nunca poderemos detê-la
porque deixaria de ser bondade,
já que sua principal característica
é a de se esparramar.

Casciano Lopes


Turma do impossível

Já pensou que
pra que algo seja impossível,
você precisa ser possível?
No mundo de alguém
era impossível e você se materializou,
então não há a impossibilidade.

Casciano Lopes


Simples assim

Tudo o que existe em mim
e que espera ser descoberto,
requer imaginação,
vontade e disposição.
Não se pode dispensar
a simplicidade que mora
quase na displicência,
mas é tranquilidade.

Casciano Lopes


22.2.23

Permissão em regador

Flores nascerão sempre
que nos permitirmos,
aí é só regar.

Casciano Lopes

Arte de fazer alma

As ruínas não devem ser cortina da alma,
os escombros nada podem com a calma
de saber ouvir a música que ela toca
e a melodia que sabe dizer.
A alma tem olhar de fazer paredes
onde finda o abrigo e aí precisamos
polir a vista de procurar jeito,
de caçar janelas pra vê-la

Casciano Lopes


Mais ou menos não serve

Meia avenida
não ganha carnaval.

Casciano Lopes

21.2.23

No lugar dos sonhos

Passando num lugar
que só existe lá,
fiz um retrato
e enquanto ajustava as lentes,
pude prestar atenção
no que dizia a luz
pra me ajudar e entendi:
que quando paramos
pra retrato
o lugar também nos rouba
em fotografia.

Casciano Lopes


20.2.23

Mundo meu, só meu

Olhei e vi um mundo só meu,
ninguém viu,
só eu.
O particular me convidou
e entrei,
no mundo que ninguém entrou,
só eu.
Nele,
vi terras embrutecidas
e crateras resequidas,
mas também vi picos verdejantes
e suas fontes escorregadias
a caminho das bacias
onde me banhei
e molhei os pés,
pés meus,
só meus.

Casciano Lopes


Sempre haverá

Haverá a proteção de um céu,
a guarda de nuvens
e um guardião feito de sol
pro campo do crescimento.
A terra fértil terá casa
e será casa cheia de habitação,
casa boa de receber a chuva
e o tempo bom,
as estações dormirão nela
e não perderão a hora de vagar
o lugar de acomodação.
As portas abertas
jamais se empobrecerão
se por elas só adentrarem as fragrâncias
enriquecidas mesmo que de ausências,
pois estarão protegidas pelos dourados
perseverantes da própria presença
que deve bastar.

Casciano Lopes


Nada preto e branco

Quando a cerca divide as cores,
deixando os tons sépias tão próximos de meu estojo
e tão mais distantes os vermelhos que fazem timidez
diante de minha distância; abusado que sou,
pulo o muro e misturo tudo, bagunço as tintas
e junto as do meu olhar nada pastel,
criando acima dos tons quentes,
a febre de ver.

Casciano Lopes


19.2.23

Multidão

A gente não vive só...
Claro que a rua fica vazia vez ou outra,
os assentos da praça vagam,
os telhados fingem invisibilidade
e as lâmpadas esmaecem numa palidez fria.
A solidão às vezes dura o tempo de uma chuva,
outras vezes, o tanto de uma seca...
Um sertão.
Mas, podemos invocar o chão de companheiro;
não meramente o lugar de colocarmos os pés,
e sim onde deixamos as pegadas da coragem,
ter nele a nossa história como fonte de alimento
ou simplesmente de remédio,
pra matar a ideia de estar só;
se fincarmos raizes nas memórias,
nas humanidades que defendemos
e nas belezas do coração cheio de boa vontade,
jamais estaremos em carreira solo,
porque as boas vivências nos farão
bem acompanhados para sempre.


Casciano Lopes

18.2.23

Corpo em desalinho não dança

Escolha os bons 'pés de valsa', suba em todos os saltos e prefira os solados deslizantes, reserve salões de piso encerado, alongue as pernas em passos esticados como os de tango e capriche no acabamento da expressão; ria muito: em braços, nas taças, nas cadeiras vazias de quem aceitou a contradança.

Antes que te anunciem a disparidade, o vencimento das oportunidades e a troca das antigas toalhas das mesas redondas, tão limpas quanto os copos ignorados pelo tempo, por outras abusadas e de pouca idade.
Escolha... Toalhas guardadas amarelam como dançante sem música. Alveje-se.

Casciano Lopes


Cinema de câmera lenta

E você?

Quando tudo gira,
quando os mundos entendem de velocidade,
quando o tempo acelera
e como diz Lenine: "pede pressa",
quando as horas parecem se esquecer de esperar
e a tecnologia da manhã se torna obsoleta a noite...

E você?

Quando parece lentamente girar ao contrário de tudo,
quando seu mundo interior se desorganiza
e não entende o exterior,
quando pede calma pra si que perdeu a pressa,
quando a espera tem que ser só sua e nunca do outro 
e os pulsos batem em descompasso com os ponteiros
das paredes de empacotar aceleração...

E você, o que fará?

Casciano Lopes


17.2.23

Ninho e céu

Eu posso romper
com o que delimita
um pensamento;
é coisa livre o pensar.
Tem coisas dentro da gente
que tem asas, 
que sabe voar
e isso não nos faz passarinhos,
mas nos faz pular muros.

Casciano Lopes


Meu ainda menino do rio

Quando posso gosto de admirar o rio;
quase todos os dias posso, namorar o rio.
A canoa que me leva pelo rio que me navega
tem boa memória, faz paradas generosas
pra que eu toque nas águas,
pra que eu entenda de fluidez
e pra que reflita no campo líquido
minha imagem navegada.

Casciano Lopes


16.2.23

Onde vivem as promessas

O meu desafio
é cumprir o que prometi:
viver mantendo a alma
em estado de florescência.
Sei que insetos mordiscam o caule,
mas nada podem
com a poda correta das copas.

Casciano Lopes


Caminho das águas

Tem tempestades
que nem molham nossa casa,
tem umas que encharcam
até o sol de nosso quintal...
Umas secam amanhã,
outras nunca;
e em todas elas carecemos apenas
saber ser terra sem asfalto demais,
pra absorver.

Casciano Lopes


Mãos dadas

Vou errar muitas vezes, me equivocar com palavras,
me iludir nas escolhas, me enganar no plantio ou na colheita,
me economizar pra sentir menos...
Mas também vou acertar, vou saber exagerar pra caber todo,
vou sorrir largo pra gastar quase tudo...
Vou guardar só o suficiente pra manter os olhos acesos,
um detalhe que só será visto de perto,
por quem parar no meu olhar e buscar mais acertos que erros.

Casciano Lopes


Aprendiz de papel

Sei que há trechos rabiscados no texto que vim pra dizer.
Precisei afiar a pena, lavar e reabastecer o tinteiro inúmeras vezes.
É que o contexto me obrigou a persistir no papel, um tanto borrado até; o que não me impediu apesar das pausas de dizer as pontuações.
Se chorar a pena nova, é que a tinta às vezes pinga...
Mas sabe que a folha aceita e transforma rasuras em memória e acaba conquistando tanto os que sabem passar olhos ou dedos de leitura, quanto o contador da pena que aponta pra saber contar.

Casciano Lopes


Estar pleno mesmo em dor

Pode passar amanhã,
pode ser no ano que vem,
não importa.
Eu preciso me ver
durante o processo,
pra que não seja em vão
minha experiência
e eu também passe.

Casciano Lopes

15.2.23

Conversa de retrato

Passei na calçada rápido demais e esqueci de me sentar nas rodas da velha guarda, corri ruas de mão única quando poderia ter caminhado nas avenidas de ida e volta, molhei os pés no mar onde deveria ter brincado de mergulho...
Perdi menos o fôlego do que esperavam meus pulmões, economizei sustos, poupei gritos escancarados e hoje, as rugas evitadas me causam valados nada contidos de guardar epitáfios.

Casciano Lopes


13.2.23

Admire também aqui, enquanto tem cores pra abrir

Há um tempo que as cores mudam de lugar,
tudo embaixo de onde as coisas são feitas pra durar
fica cinza e os olhos que se fecham pra nunca mais olhar,
por segundos deixam de enxergar pra em instantes depois
entender de acordar pra sempre
onde não faltam tons de admirar.

Casciano Lopes


Olha o trem

Nós homens vivemos de tratos,
pensando bem,
não deveríamos a bordo do trem
da vida fazer tantos pactos.
Ouvi dizer de um trem que descarrilhou
por conta de um rato na linha.
Na vida,
por tão pouco muitas vezes
o controle sai dos trilhos
e os acordos nem despertam
pra cumprir.

Casciano Lopes


De volta ao passado

Somos observadores de nós mesmos; observem que os bebês passam horas encantados com suas mãos e dedinhos, namorando seus pés... Observam.
Com o passar dos anos, vamos nos deixando de lado e quase que por excesso de espelho passamos a olhar o outro, que quase sempre: é mais feio, mais descuidado, mais inconveniente, mais...
Há um tempo em que voltamos pra nós; uns ainda com possibilidades de melhorar os danos do espelho, outros ajustam suas molduras e se dão por felizes, para tantos outros não caberá nem mais a pergunta: '"espelho, espelho meu".
Ocorre para todos, o tempo da canseira... Das saudades que só aparecem às segundas e terças-feiras, das que desaparecem nas sextas e da escolha das palavras cansadas dos anos, que vestem uma frase, mas que não surtem efeito num discurso.
Chega um tempo carente de análise; das avarias que sofremos e dos descasos que cometemos conosco... Em que precisamos voltar pra observação de nossos dedos, não mais tão pequeninos, agora crescidos e que precisam se voltar pra apontar nossas qualidades sem esquecer nossos defeitos e que dê tempo de usar as mãos pra acariciar nosso espelho.

Casciano Lopes


Linha de chegada

Deve haver um pódio...
Depois da solidão, carência ou contramão.
Depois da multidão que dispersou
enchendo de vazio, deve haver.
Consolação, prêmio ou coisa assim,
ao dobrar as esquinas da razão...
Deve haver.

Casciano Lopes


Entre a concentração e a dispersão

No recuo me percebi, consegui me olhar.
Como uma bateria de escola de samba,
que libera a avenida pra escola passar;
que recua, mas não deixa de tocar...
Recuei.
Venho sendo guardado pra apuração,
meu quesito é julgado
desde que coloquei os pés no desfile
e não posso parar;
o enredo precisa passar.

Casciano Lopes


12.2.23

Fugacidade

Saibam todos que não há eternidades na terra dos efêmeros eventos, sejam eles de curta ou longa promessa, sejam de juras abraçadas em instantes estreitos ou largos, sejam de lágrimas curtas divididas ou de sorrisos compridos compartilhados, seja de aperto nos olhos de olhares trocados ou nas mãos unidas de querer prometer...
Eternidades, não há onde tudo passa. Em dado momento caminhando numa praia, os dedinhos se soltam, pra que um possa entrar no mar... Cruzar.

Casciano Lopes


O show não pode parar

Renascerá em outros salões
vitrolas e novas canções,
novos pares darão passos
em volta do bem querer,
beijos molhados
deixarão amortecidos
dançantes corações
e bambos violões
nos dedos das altas horas
ensaiarão declarações.

Casciano Lopes


11.2.23

Convite sem partitura

Um dia, fui convidado pra um baile, todo vaidoso; escovei os cabelos como quem escova uma égua pra exposição, cuidei das unhas como os cascos e ajeitei o brilho dos sapatos como se ferraduras fossem.
Quase peguei a estrada quando descobri que eu era o músico principal da 'dançaria'; borrei meu rosto sem canção porque faltavam cordas no violão, além da 'banguelice', faltava ensaio que ao menos me fizesse batucar nas mãos.

Casciano Lopes

Cruzando mundos permitidos

Sigo abrindo portas,
mesmo que algumas se fechem, sigo.
Não forço mais as maçanetas
das que não me oferecem passagem,
não procuro abertura
das que negam fechaduras destrancadas;
porque dos portais que se abriram
durante minha viagem,
entendi que não era sobre eu
estar preparado pra passar
e sim, sobre estarem prontos
pra me ver passar.

Casciano Lopes


Templo é instrumento

Ainda que falte a música,
que nunca falte a dança,
ela deve viver dentro da gente;
os passos afinados diariamente
provocam uma festa.

Casciano Lopes


9.2.23

Quanto quer?

Nas areias do mar ou do sertão,
não pode faltar a vontade;
de ir ou de ficar, não importa...
Ela dirigirá chegadas e partidas,
estadias e caminhos que até poderão faltar,
mas pés não faltarão
se o desejo for profundo como o mar
ou largo como nos olhos é o luar.

Casciano Lopes


Mente sã

Quando a gente
conhece o caminho
de casa,
é seguro nomear
condutores.

Casciano Lopes

Um micro planeta

Tenho por hábito me sentar à beira de mim e ficar espiando meus mundos.
Passo horas olhando as planícies, as crateras, os oceanos e desertos...
Vejo as constelações e relembro das cadentes, penso nos meteoritos que riscaram meu firmamento e nas cadeias de montanhas que tantas vezes me esconderam.
Não me omito de fitar os desastres naturais; grandes erupções e terremotos que modificaram a geologia de minhas terras e concluo: passarei assim pelas galáxias a vida toda, girando meu pequeno mundo como um derviche no espaço, buscando ser habitável pelos mundos todos.

Casciano Lopes


Vista molhada

Conhecemos, ao longo do pequeno tempo em corpo físico, inúmeras águas de lavar as mãos; nem todas são limpas, inodoras ou tratadas. Logo não se pode consumi-las, mesmo que venham em taças de cristal, são impróprias para o consumo.
Lavamos as mãos e tantas vezes a consciência com a salobra do mar de nossa casa, sem perceber que o sal só fará conserva do que imaginávamos lavado...
Enfim, a taça que serve a água não pode estar limpa sozinha, seu conteúdo precisa justificar-se, ela precisa de mãos e de que carreguem um bocado doce do que se oferece e consome. Afinal, não podemos doar o que sobra, não há mérito nisso, porém, não podemos morrer de sede ao custo da doação.

Casciano Lopes


A indiferença do outro é dele

Se o sonho estiver bem armazenado,
se bem protegida guardarmos nossa essência,
se nossas convicções se mantiverem preservadas
e baseadas num mundo particular de coerência e leveza...
Nada nos roubará de nós.

Casciano Lopes


O que importa não agoniza

Quando os danos afetam nosso coração,
seja por desgaste dos anos
ou por falência de planos,
recomenda-se transformá-lo
em arranjo de cabeceira:
junte flores e enfeite os batimentos;
assim o sono decorado
continuará possível dentro do peito...

Casciano Lopes


Disse a duendina

De modo que prefiro discutir
com os gnomos e duendes
sobre a importância das doces frutas
que ficar pedindo aos vizinhos meus
que sejam menos amargos...
Eu não pensei nisso só,
fadas que voejavam o jardim
arrancando as daninhas da ignorância
concordaram comigo.

Casciano Lopes

Blindado

De nada adiantará
se construíres uma fortaleza
onde bate as ondas
ou onde lava e leva a chuva...
É preciso construir dentro de tua pessoa,
onde não haverá vento
que desloque o pensamento bem feito.

Casciano Lopes

Alvo fácil

Não raras vezes nos descobrimos expostos,
pensamos estar guardados
na cidade que construímos de abrigo
e não nos damos conta
de que a erguemos nas encostas da exposição.
Nos colocamos numa falsa sensação de guardado...
É quando o tempo exige da gente
que seja mostrada a carne
já que a alma em questão não consegue expressão;
então o medo vira enfrentamento e todo senhor de si,
se veste de capacidade.
E neste instante a crueldade
pensando ter dado de frente com a coragem;
foge.

Casciano Lopes

Conhecer pra me vencer

Nunca é fácil...
Mas não dá pra viver a vida nos porões de refúgio, você até pode passar por lá pra conhecimento e reconhecimento; depois precisa se colocar à prova, enfrentar a maldade com bondade e lutar como gigante; não contra um povo, mas com a tua própria sombra e de forma amigável pra que ela não te vença no tapa.

Casciano Lopes

Atletismo

O homem precisa entender de pausas.
Desde o nascimento somos treinados
para a corrida e competição;
adestrados para o mérito dos corredores.
Chega um tempo em que é preciso
compreender sobre desaceleração;
porque se o homem não se permitir conhecer,
poderá até alcançar o pódio,
mas nada saberá do peito de sustentar a medalha.

Casciano Lopes

Perto de mim

Foi nos meus piores momentos que descobri preciosidades escondidas em mim, que cores me permitiram desmistificar todo o bege em minha volta e que encantos saltaram pra batalha sem que eu nem soubesse de suas existências... Tudo dentro de mim, morava lá; essa força calada, que só gritou quando uma lágrima muda rolou admitindo humanidade.

Casciano Lopes


6.2.23

Eu sei que sei

Se eu,
todo dia
não me disser
que posso,
acabo acreditando
nos que dizem não,
sem saber nada
de mim.

Casciano Lopes

Um intervalo

Quando me sento aqui,
estou caçando um jeito.
Quando me deito ali,
estou procurando o sonho de achar.
A vida é busca,
encontros de achados e perdidos
antes que vire partida.

Casciano Lopes

Muito prazer

Um dia me olhei
de um jeito diferente,
gostei.
Desde então,
me apresento sempre que posso
e assim,
conheço um tanto mais do cara
que ainda não sei quase nada.

Casciano Lopes

5.2.23

De caso

Tem vezes que o céu aqui de casa fica cor-de-rosa. São momentos em que o chão cria mistura de estima e espelho, e aí quase caso comigo, ando alto e mal toco o piso com medo de borrar a beleza toda.
Outras vezes olho pra floresta que plantei em meu entorno e tenho a impressão que algumas árvores não cresceram, outras até encolheram. Perguntas que me fiz no passado, encontro dependuradas nas árvores que subiram pra tocarem o céu daqui de casa; aí discuto a relação comigo e quase peço separação.
Muitas vezes me deito na calçada aqui de casa. Tenho um caso com as pedras, me uno a tal ponto de me confundir com elas. Não sei porque pedra tem tanta saudade e talvez por isso nos identifiquemos, ficamos ali em estado de quase rua, fitando o céu aqui de casa mudar de cor, e sentindo saudade de tanto! Até de mim, aquele moço por quem me apaixonei quando o céu aqui de casa era cor-de-rosa.

Casciano Lopes

Inteiro morar

Não é sobre levar um peso que não é seu,
não é sobre calar humildemente ataques ao seu forte
e placidamente permitir bombardeios inimigos.
É sobre ser muralha alta, rua larga
e campo aberto de força; ser fortaleza feita de convicção,
ter a sobriedade dos grandes castelos
e calma de abrigar uma cidade se for preciso,
desde que nela morem as tuas escolhas.

Casciano Lopes


Nunca foi sorte

Você pode sentar-se à sombra, pode esperar a noite em rede de varanda ou o dia em cama mole.
Mas pode caminhar enquanto espera, descobrir caminhos como fazem os pirilampos enquanto madrugam as horas, acampar o seu descanso onde a vista lhe permitir encontros e muitos chamarão de sorte a sua estrada; basta que você saiba que a tal só nasce na busca incessante de quem não faz da vida só um lugar de passante.

Casciano Lopes

Eu decido

Até quando for permitido,
lutarei pelo proibido...

Casciano Lopes

3.2.23

Também é mar

A chuva tem algo tão seu!
Um particular molhar,
que meus olhos até entendem
quando precisam chover.

Casciano Lopes


Na ponta da língua

O que provoca minha esperança,
muitas vezes não são as promessas,
são as vagas palavras
que me inserem numa peleja,
onde entro com dúvida
e dela só me retiro com a certeza
toda prometida numa palavra cheia.

Casciano Lopes

1.2.23

Tocando ontens, reverenciando hoje

Quero manter o tempo da contemplação...
Sem saudosismo, sem lamento ou melancolia.
Porque a memória guarda o riso da fotografia
e que bom que descarta o choro e esquece a ironia.
Guardo com apreço cada vista da viagem,
os embarques e desembarques todos.
Hoje cada parada de viajar é portal
que me teletransporta no tempo
sem segundos ou minutos,
contando só os momentos sem relógio
porque gentilmente se esqueceram de passar
justificando cada pulsar do meu pulso,
que desconfio, sem horas.
Penso ser muito agraciado
por ter inúmeras vezes a sensação
de tocar no tempo e sua obra;
quando viajo hoje, dentro da lembrança,
vou sentado mesmo,
porque a posição do corpo é desprezível
se vive no olhar as rodas do que viu,
que movimenta o moinho de produzir
motivos pra viver todo dia.

Casciano Lopes


Decolagem

Voar está além das asas,
as vezes cruzamos distâncias
impossíveis para os pés.
Há sempre uma reserva
de céu em nossas mãos
e quando dela precisamos,
voejamos.

Casciano Lopes

@carlos_aa_lopes

Você...
Meu complemento divino.
Que ampara
e que sabe da arte de guardar.
Só agradeço
por tanta força que cavas;
dentro de ti,
dentro de mim,
dentro de nosso celeiro de amor.
O agora com suas tormentas
só me ensina a acalmar,
porque há tempos você me apazigua.
Que o que ainda sobra em mim,
te sopre brisa,
pra que saiba ainda mais amar
porque te amo nesse
e em todo o caminhar.
Te prometo ter forças,
porque é o mínimo que posso fazer
diante da tua coragem.

"Casciano teu".
Casciano Lopes




Abraço de cor

Percebi que as dores gostam de cores; é um horror lamentar-se sob cinzas quando se pode gritar sobre tons quentes.
Está além de uma maquiagem, é sobre não perder o viço; a palidez está guardada pra morte e o colorido, pra vida... Mesmo que caibam ais.

Casciano Lopes


30.1.23

O que eu diria pra mim?

Eu pediria tempo pra aquele menino; pra demorar-se mais nos abraços, pra que se gastasse menos nas certezas, pra que acolhesse mais as perguntas sem a obrigatoriedade das respostas, pra que não se demorasse tanto nas vontades e que se esquecesse das horas quando as realizasse e que realizesse todas, até pra que custasse passar; porque passa e bem nos ouvidos dele eu diria sobre a perenidade, inclusive dos sentimentos. Contaria do mal e do bem que convivem travestidos o tempo todo, do que finda e do amor que nunca acaba.
Falaria, por fim, de quando diminuem os passos e pediria a ele: corra menino, corra muito, pelo riso ou pelo vento simplesmente, porque a vida escapa e o presente é passarinho nas mãos que voam.

Casciano Lopes



De frente com a interrogação

Quando reflete no meu chão de pisar toda a incoerência de meu eu, vejo que nada é meu; nem mesmo a reflexão que me posta diante das perguntas, que me espreme contra as tábuas de minha lei, buscando uma resposta que exprima quem sou ou que no mínimo imprima uma boa impressão que nem eu sei.
É mesmo! Nada meu, nem eu...
Tudo emprestado e que um dia devolvo, quem sabe sem engano, com o mínimo possível de equívocos pra que enfim, me entenda coerente.

Casciano Lopes

29.1.23

Tomado o direito

Não sei sobre as negativas,
estou ocupado
com as positivas posturas
diante de um mundo
grande pra caber meu tamanho,
mas que as vezes se faz pequeno
e eu preciso usar a força
pra ampliar suas salas.

Casciano Lopes


27.1.23

Esperando eu na calada noite

Quando me espero na madrugada, quando passo café pra ajudar esperar, quando na sala quase adianto as horas pra me encontrar e sento no sofá feito banco de estação esperando o trem chegar; ouço nos trilhos o aproximar.
Sinto de longe os vagões se esfregando no ferro, produzindo ritmo de chegada e eu, espero uma locomotiva que me traga; uma composição que me compreenda entre o primeiro e o último carro de gente; espero um aviso do bilheteiro dizendo que cheguei ao encontro; vou na estação me procurar na multidão feita de agonia e me tomarei de assalto como faz uma vontade e será como o sol quando chega, que abraça a noite e a engole toda.

Casciano Lopes


Mas também é mar

Um dia
é apenas
uma gota
no Atlântico.

Casciano Lopes

23.1.23

Da atadura segurando um galho seco

Aqui é assim...
Fixamos nas paredes
o lembrete de que a vida
requer curativos
e de que estamos
sendo tratados o tempo todo.

Casciano Lopes


Aprender com pessoas

Aprendi ouvindo o motorista do aplicativo que me possibilita chegar aos lugares:
- Se eu desafiar você a subir num alto poste simplesmente pra chegar lá, talvez vá recusar por sua limitação, inclusive.
- Mas, se eu colocar alguém amado seu em perigo sobre este mesmo poste e voltar a te desafiar, ainda sem terminar a frase você estará lá em cima providenciando o resgate.
- E aqui, eu Casciano te pergunto: pelo quê ou por quem você subiria no poste?

Casciano Lopes

Anotações de cabeceira:

Não faltar recurso
para prover encantamento
e verba o bastante
pra conjugar o verbo amar
quando um desamado dele precisar.

Casciano Lopes

Palavras quaradas

Sigo como ela,
surrando as roupas
naquele batedor de roupas da fazenda,
lavar é muito pouco;
dizem as manchas
da camisa de ontem pra lavadeira.

Casciano Lopes

Unicidade apesar

O que me diferencia
também me torna único.

Casciano Lopes

Sétimo dia

Domingos nos reconectam,
enquanto pegamos impulso
pra próxima semana,
olhamos pra que passou
e pensamos em ontens
que também passaram...
Ou seja,
sempre passa e fica no coração
só do que precisamos hoje;
não pesa
se não transbordar de amanhãs.

Casciano Lopes

22.1.23

Herdeiro da fortuna Mãe

Hoje, a sala do meu tempo tem em destaque a riqueza que tive, aliás, que ainda tenho, só que agora do lado de dentro, fincada nas minhas paredes estruturais mais internas... Uma riqueza que sustenta a pobreza do telefone mudo, da mesa sem os pratos de risadas, dos abraços órfãos de braços e do olhar que outrora encontrava abrigo quando as palavras perdiam a dicção.
Ah! A pobreza da falta que tantas vezes pinta de bege minha sala de estar no mundo, só não me desgasta além da conta, porque gasto meus dias usando as moedas de ouro que meus bolsos encheram nos tempos da fartura; onde sempre havia um bolo rico acompanhado com café, servido em mesa com colo no jeito de olhar, que só ela tinha quando me via enriquecer.

Casciano Lopes


De amor pincelado, em foi pra isso que vim

Quando não era de bom tom,
abusei das tintas fortes;
só pra deixar em tela as cores
que a liberdade precisava registrar.
E sempre que houver inibição
ou proibição da arte de amar,
prometo fazer exibição
da boniteza que ela pinta.

Casciano Lopes


21.1.23

Tragar

Trago silêncios nos ombros
porque o grito não era adequado,
choros contidos no colo
porque não era momento de chorar,
trago.
Medos calados trago;
engulo mesmo!
Embora não recomendado.
Mas também trago um rosto
que encontrou no riso
o consentimento de que precisava
pra guardar só o que corria
pros braços e não dos braços,
um olhar apurado na vontade quieta
entre o ir e o ficar,
e findar sorrindo pra saber esperar,
e espiar tanto a ida quanto a volta
como quem expira a vida.
Por fim,
sei que abraços eu dei
e até ao que soluçava soube acolher
pra calar e assim, calei.

Casciano Lopes

19.1.23

Da nossa convivência

A dualidade caminha por nossa pele...
Mora toda; ri e chora nos mesmos olhos,
brada e silencia na mesma boca.
O toque das mãos na face dos dois;
duas mãos de dizer calma e de pedir pressa,
dois lados de ser fotografia;
alguém com melhor ângulo e com defeitos.
Focos da mesma pessoa, com luz e sem ela,
no breu do quarto que se empresta
ao prisma do mesmo, sem ser óbvio,
porque são seres num registro dual,
um verdadeiro e outro de tão verdadeiro,
guardado.

Casciano Lopes

18.1.23

Liturgia

O que será que reza minha beatitude no silêncio das madrugadas? Que trajes santos devem vestir os altares da alma quando passam as horas que se demoram em mim? Em que idioma canta o coral dos meninos expostos nas galerias de minha história e como falam os sacerdotes de minha sacralidade? Que parte de mim entende a ladainha pra que a outra surda por dúvidas consiga a certeza de continuar querendo sentir os sacramentos da vida?
... Talvez as respostas estejam escondidas no medo do que acredito, nas cores que ainda não vejo das paredes de meu templo erguido na repleta coragem de descobrir.

Casciano Lopes

Guerra de um homem

Passava em revista todo o tempo
a tropa dos que se foram,
até que só,
descobriu no desmonte das minas
perder o mínimo possível.

Casciano Lopes


16.1.23

O trânsito dos sentidos

O que será que pensa a calçada quando se deita pra que eu passe em pé? O que será que diz a rua contemplando o meio-fio quando se afasta de mim? Que música será que toca no balcão da padaria enquanto meus ouvidos se distraem com a algazarra dos pombos na árvore da esquina, onde meu corpo passa em revista a gentileza do passeio de me ver passar?

Casciano Lopes

Saber ventar

A gente vive sabendo do redemoinho,
conhece seus efeitos
e por isso plantamos árvores,
pra nos agarrar.

Casciano Lopes

Pedrada

Soberano é o rio da vida que nos carrega,
nós somos apenas seixos atrás de mar.

Casciano Lopes

15.1.23

Recíproco caminho

Quando o homem senta
na esquina da vida pra saber esperar,
a demora se deita feito estrada plana
e acredita nos passos dele.

Casciano Lopes

Na matéria sem ser

É bom andar por terra
sem prender a vista...
E não nos privarmos de céu
só porque as asas estão recolhidas.

Casciano Lopes

Meteorologia

Não sei pra onde
o vento me soprará,
sei que como nuvem
que sabe
correr pra molhar,
serei.
E o céu
que sabe fazer
tempo pra tudo,
choverá um canto
pra eu cantar.

Casciano Lopes

Matemático

Moro inteiro porque aprendi que estando em corpo é bom que não falte nada e embora, às vezes, nos arranquem pedaços, precisamos estar inteiros; seja na dor do que falta ou na alegria do que está completo, importa ser um bom tempo, indivisível pra saber passar.

Casciano Lopes

Retorcidos

Tem dias
que a estrada é de bronze,
que os ares de chumbo
judiam dos galhos
de pousar passarinhos.

Casciano Lopes

Protagonista do não acabado

Quando passo as horas aqui
e repasso o que vi de mim,
não vejo o 'fim' em letras miúdas
escalando a tela no final do filme,
apenas vejo como trepadeira
o recomeço emaranhar-se escandalosamente
no encanto de nascer todo dia
e de estrelar a mesma película de mim mesmo.

Casciano Lopes


13.1.23

Um acordo de acordado

Ah! Os sonhos também mudam de lugar.
Passamos a vida correndo, mudando, querendo...
Parece até fugindo de algo, mas é só sonhando mesmo!
Chega um momento na vida em que paramos,
só não de querer, afinal, os sonhos continuam regendo,
eles mudam, mas passam a dirigir os dias...
Parece que se apequenam, mas não,
eles nos colocam no centro do querer,
nos tiram das bordas, dos extremos desnecessários.
Sonhamos com um convênio médico,
com uma saída com volta,
com uma data que chegue em tempo,
com boletos pagos e por fim,
sonhamos com um sono, não que nos faça sonhar,
mas que nos faça dormir em paz.

Casciano Lopes

10.1.23

Sou eu...

Aos vinte e poucos...
Eu podia tudo e nem sabia.
Nem sabia
que a estrada iria inclinar por vezes,
e tanto!
Mas tudo bem,
eu também não sabia
que o caminho me ofereceria tanto colo!

 Casciano Lopes

Agora que entendi

Então é de apetite
que falavam os sabores?
Pois serei um prato de vontade,
assim não sobrará fome...

Casciano Lopes

Certamente virá

Há que passarinhar
um futuro livre,
sem as amarras de asas,
onde se façam possibildades
além dos muros
que cercam os céus
e das proibições
que apequenam o homem.

Casciano Lopes


8.1.23

Eu e as flores minhas

Sou eu que devo
me manter jardim e então,
canteiros e jardineiros
respeitarão meus passeios e bancos.

Casciano Lopes

Tem que alar

Talvez falte voar,
talvez brincar de céu,
talvez pintar asas
e viver um passarinho
que sabe dos mundos
porque sai do chão.

Casciano Lopes

6.1.23

Inteira poesia

Eu vi um poeta correndo...
Ele era um com a água do meio-fio durante a chuva, era um com a sequidão do sertão que soprava quente o sertanejo da espera e um com a pedra topada saindo rolada em busca de abrigo que coubesse a pedrada.
Eu vi o poeta...
Meio homem, meio bicho nervoso, meio empacado feito teimosia, meio anjo, meio céu de aviões e por vezes meio pista longa de aeroporto e outras chão curto de brecar os trens de pouso.
Só era inteira a poesia que ancorava o homem, o destituindo de carne e o fazendo de letras.

Casciano Lopes

2.1.23

A vida surpreende...

O bom passa, mas o ruim também...
E a alegria volta, sempre volta!
Pode ser em um 31 de dezembro
ou em qualquer fevereiro,
pode vir vestida pro carnaval
ou travestida de bolo de aniversário...
Pode ser que venha numa madrugada calada,
numa manhã ensolorada
ou numa tarde alada
feita de asas pra que você voe
pra uma noite inesquecível,
pode ser que venha
num réveillon de mesa farta,
onde o amor vem nas toalhas
e o brilho da conquista de um novo tempo
vem recheando os pratos
ou numa taça de primeiro dia
onde se renova a esperança com alegria.
Taí...
Alegria é a palavra.

Casciano Lopes

Manso

Quando eu me perdi
nas turvas águas
do rio que vive em mim,
procurei não me debater
e esperei o caminho se fazer,
no meio da água mesmo
foi que me achei;
molhado, mas orientado.

Casciano Lopes