9.4.26

É só uma roupagem, troca-se

Às vezes um mesmo homem
pode ficar encoberto de angústias,
mas é o mesmo homem.
O ontem se encontrará com o amanhã
em algum lugar chamado hoje...
E lá dirão:
- Olhem aquele homem descoberto.

Casciano Lopes

A carta de 1980

A carta chegou no portão, escrita à mão. Sem pressa, veio embrulhada em envelope dos correios decorado de selos. Não fossem verso e reverso, remetente e destinatário se encontrariam.
O carteiro cheio delas em sua mala de lona, mais parecia um boateiro contendo notícias, que um homem cumprindo ruas em seu ofício.
Os portões ansiosos eram lugar de encontro de papéis, tintas e pessoas que riscavam letras que sabiam contar.
Um pedido de casamento, um mexerico, uma partida, uma chegada... De despedidas a risadas, cabia de tudo nos espaços que a caneta enchia de cheiros.
O mundo sabia dizer, sabia ouvir, sabia ler o escrito. E se não, o vizinho lia em voz alta a saudade que alguém sentia na carta que dizia.

Casciano Lopes

Parte minha partida

Àquela mesa o medo não se sentava,
a tristeza escorregava pela cadeira,
e do chão era varrida.
A preocupação ia embora,
perdia a paciência com a lonjura da conversa,
e a fome não se demorava quando via
a vontade abraçando o apetite da gente.
Lá... um lugar de mesa farta,
nunca faltou a alegria no prato,
o riso sempre esperou na porta,
o olhar serviu quente o amor,
não em pedaços,
mas num bolo inteiro que repartiu.
Parece que sabia partir... partiu.

Casciano Lopes

Pernas de linha em mãos de agulha

Dê-me a mão e eu te ajudo a emendar os retalhos, faremos cabana das estampas que juntamos no tempo.
Vamos vestir a nossa casa de morar com tudo o que guardamos nos bolsos da estrada que caminhamos. E então, estaremos de bem com a costura das mãos que demos pra fazer caminho, pra unir os tecidos que queriam ser um.

Casciano Lopes

Moro aqui

Lançado em um corpo,
atirado numa cidade,
semeado num mundo...
Sou só um forasteiro que pretende
não se adonar demais,
que quer crescer como o 'pé de feijão'
pra voltar pra casa.
Nada deve me ter,
e eu, nada que me prenda
pra leveza ser útil ao voo.

Casciano Lopes

6.4.26

O menino que subiu na letra

Ele ganhou uma máquina de escrever como quem ganha uma árvore.
Sentou-se em sua cadeira feito quem escala galhos, datilografou o mundo, contou tudo que via lá de cima. Via tanto!... Ultrapassou quatrocentos toques por minuto.
Ali deu frutos e sombra, amarrou cordas pra balanço e convidou o povo pra piqueniques sob sua copa.
E entre laudas escreveu as flores que floriu.

Casciano Lopes

5.4.26

Testemunha noturna

Ainda ontem
eu acreditava
e a lua me jurava inteiro.

Casciano Lopes

De todas as graças

É santa toda a mão estendida pro acolhimento,
toda a boca que cumpre a promessa da palavra.
Santo o abraço que se abre indistintamente
pra proteção dos penitentes,
o colo que oferece abrigo aos que perdem a fala
diante dos que fingem casas de oração.
É santo todo pão que se divide com a fome
dos que andam pela linha dos viajantes da escassez,
o rio da bondade onde toda a sede provocada
por estações fincadas no peito dos santos
acham a saciedade do encontro.
Toda a semana que se conta aos anos,
e que se junta aos contos de beatitude
de uma humanidade... é santa.

Casciano Lopes

Me deixe ser

A porta que me serve é a que me comporta inteiro.
Que embora eu precise deixar bagagens excedentes
do lado de fora, nada de minha pessoa é excluído.
Tudo o que me importa entra,
e conforta meu estado de pertencimento
do lado de dentro.

Casciano Lopes

Me dando à luz

Tenho que nascer sempre,
renascer de cada morte de passado.
Reviver de cada golpe que corte.
De cada parto de sorte... nascer.
Deixar que parta o mal
que veio necessário,
mas que se vá solitário,
pra que o bem me faça companhia
e bem acompanhado
quando aqui chegar comigo nascido.

Casciano Lopes

1.4.26

Eu que lute...

Eu estou lutando...
Pra continuar vivendo
com 1/3 de coração.
Pra continuar andando,
prorrogando efeitos da degeneração.
Pra continuar mais agradecendo
que reclamando.
Pra continuar aprendendo.
A luta é individual,
e o que parece fim pode ser o começo.
Tenho meus pilares que me acenam
quando quero parar:
o Reiki, a poesia, a cozinha, a fotografia, 
meu amado marido, minha família
e os poucos amigos que fiz.
A vontade de estar presente
em cada circunstância,
de não fugir da cama dura,
vem da minha ancestralidade,
vem dessa riqueza herdada.
Meu compromisso é com o riso,
com o 'sim' que digo todo dia
pra levantar, e com a coragem de viver.
Só acredito no que mantém o amor,
o que o dispersa...
dispenso.

Casciano Lopes

31.3.26

Convicto

Ainda que solitários
entre a multidão,
estaremos divinamente
acompanhados na missão
que viemos desempenhar
no meio dela.

Casciano Lopes

Pequeno manual de edificação

Foi nas ruínas
que aprendi sobre reconstrução,
e erguendo meus casarios
entendi sobre morar neles.

Casciano Lopes

29.3.26

Outono de Dora numa borboleta

Doralinda voltou ontem...
como em 2025,
veio e voou pra casa num instante.
Vem pra matar saudade,
pra dizer o que não cabe numa frase,
pra que eu não me sinta só.
Na verdade,
acho que não cabe em lugar nenhum,
é imensa.
Nem ela e nem eu cabemos,
nessa falta.

Casciano Lopes
[Da borboleta que me visita]

Veste

Eu vou assim,
vestindo coragem
pro medo não ficar nu.

Casciano Lopes

25.3.26

Casciano na janela

Daqui
vejo a noite indo,
leva o silêncio dos cansados.
Vejo o dia vindo,
traz o som do tempo
acontecendo.
Daqui...
Sem medo amanhecendo.

Casciano Lopes

Sob voo

Calei o barulho
das ondas do meu mar,
porque me era
insuportável não ouvir
o canto das gaivotas.

Casciano Lopes

Voar, voar

Quando eu voo
com os pássaros do meu quintal,
quando a altura eu frequento
nas asas deles,
quando eu canto em partitura
o mundo lá de cima,
acompanhado com a segunda voz
escrita em penas.
Eu não quero descer.
Se desço, feito eles,
pouso nos galhos da aventura,
tentando não pesar na desventura,
e se porventura vier o silêncio...
canto.

Casciano Lopes

Cabimento da calma

Vivemos
onde a calma souber ficar,
seja numa montanha,
numa cidade
ou beira de mar.
Se somos paz,
cabemos em qualquer lugar.

Casciano Lopes

Ave

Tempo que me instala em sua passagem, tempo que beneficia minha estadia cedendo seu lugar de referência, tempo que me consome enquanto placidamente me interroga: se quero e o quanto quero ser parte dessa imensidão...
Senhor Tempo que espera minha resposta, que tão pacientemente pede provas de minha devoção, que despretensiosamente espera meu sim, que ousadamente finge que passa pra que eu fique eterno enquanto morro... tenha piedade de meus amores, tenha calma quando julgares as minhas flores, use de clemência com os jardins que caminhei.
Enquanto aqui morei querendo ficar, leve em conta que eu passei, oh Tempo!

Casciano Lopes