19.6.22

Anzol de carne

Na fundura do poço
há que se pescar
um coração capaz
de ser balde,
sarilho
e corda;
pra chamar a água
que sacia a sede
do deserto do chão.

Casciano Lopes

Essa gente

Ainda é pequeno
porque cabe nas mãos
o desejo de gente cheia de mundo.
Estou cuidando pra que aumente
e só caiba no mundo o que tenho,
e o que falta quando me escapa
das mãos de gente.

Casciano Lopes

Tato

Tem que olhar o mundo
sem os olhos.

Casciano Lopes

Cardiograma

Bate fora do peito
a vontade de entender essa capacidade
de compassar os batimentos internos,
pra que não falte a emoção
durante a avaliação da razão.
A aprovação dependerá do fluxo
e seu motivo de cuidado.

Casciano Lopes



Astronauta de ver

O que dista o homem
da lua
não é a falta do foguete
pra levar,
é o olhar humamo
fora da órbita.

Casciano Lopes

16.6.22

Em face das fases

Se a sombra fugir com as folhas,
que fiquem as raízes
e que finque entre nossos galhos,
a luz que atravessa a certeza
de que somos capazes de primavera,
feito árvore que não duvida.

Casciano Lopes

Uma forma, instalação

A vida também é tramada e obedece padrões em suas tramas.
São encontros de pontas, são finais de linhas, são desenhos obedecidos geometricamente; perfeitos ou nem tanto.
Bonitos sim, sempre!
Há sempre algo de lindeza em fios que se juntam para criar uma existência.
Vale pra vida também. Quiçá exista dentro de nossa artesã construção, luz que ilumine a obra e que sejamos elevados a farol para os que navegam mar alto.
Penso nisso, quando acordo e miro a mesa de cabeceira... Como em hora de marujo ao mar, hora de despertar e se iluminar para iluminar.

Casciano Lopes



15.6.22

Os segundos de pepitas

O que me provoca esperança,
não são as relíquias que guardo;
essas me despertam força,
são os garimpos no meu baú de miudezas,
que de cotidianas atiçam meu relicário,
transformando em antiquário
minhas maneiras de acreditar.

Casciano Lopes

Contador de ciência

Não quero falar da falta,
da escassez ou dos débitos na planilha dos dias.
Nem quero planilhar o que não cabe
no mapa quadriculado dos números inteiros.
O que é inteiro não existe pra caber...
Exala, foge, escapa, transcende,
supera o quadradinho de cabimento.
Isso acontece com o metafísico,
com o sublime, com o extracorpóreo,
com o supra-físico que avistamos sem toque,
como quem vive dentro em sopro de fases,
numa fração que deve sobrar
a quem interessa gerar créditos.

Casciano Lopes



Caixa de correio

Clamam os selos...
Por envelopes pardos, brancos ou zebrados.
Clamam em prece de carteiros com suas bolsas murchas.
Esperam com mãos juntas ao peito, por linhas tortas, não importa, preenchidas de caligrafia alfabetizada ou ditada por bocas de tempo bom.
Pedem os selos que não finde o zelo pela distância; que o esmero de buscar a palavra na escrita, mantenha a fome por notícias do distante e que continue empregando não só o envelope e a campainha, mas também a caneta de dizer presença... De falar de gente.

Casciano Lopes

A noite precisa

Viva ao ponto de tornar-se necessário.
Preciso aos que estão em tua volta,
aos da rua debaixo,
aos da vila alta
e aos sapateiros da cidade baixa.
Não é ser importante,
é fundamental entender
a essencialidade de ser.
Onde se pede a sobra de onde se esbanja,
seja a equação que justifica.
Seja a luz do teu poste da rua
e se faltar lâmpada,
pendure a lua.

Casciano Lopes

Um viajante de peso

Veio tudo na mala;
teve que caber a porteira,
a lua que beijava pasto,
o cafezal e o cercado da criação,
o sol que era vizinho do açude...
Até a ponte
que morava com uma araucária de papel passado,
enfiei na pequena de lona.
Quem não coube,
coloquei nos bolsos da calça curta e desde então,
quando preciso lavar,
não uso alvejante,
faço uma água com sabão de pedra
e depois quaro com anil;
que é pro azul chacoalhar as minhas cercas.

Casciano Lopes

Andanças divididas

Não...
Não ando só.
Carrego meu nascimento cheio de mãe,
minha criança cheia de roça
e meus ouvidos cheios de casos
com pitadas de cachimbos dos mais velhos.
Por onde passei,
deixei um pouco da prosa que contei,
mas trago cidades inteiras
e sua gente morando no compartimento meu.
Arrasto pelas mãos uma turma de circo...
Sempre optei pelo riso
e até hoje prefiro montar as lonas
em cada campo aberto que chego.
Mora tudo nos meus cômodos
e andam comigo pelas mãos,
da plateia aos cartazes do espetáculo.
É,
não vivo só.

Casciano Lopes



14.6.22

Tenho mas não tenho

Ainda é noite nas minhas madrugadas...
É preciso calar os relógios que acham que podem avançar deliberadamente por cima de meus ponteiros, como se fossem donos das horas.
Penso que no máximo são administradores do que não lhes pertencem: a minha noite.
Minhas horas, que eles dizem que avançam, voltam pra buscar nas tardes os que lá ficaram e eles gritam noite alta, não esperam e despencam em manhãs alarmando minhas ausências.
Os de pulso, ainda quebro... Para não assustarem as minhas fraturas, as que sinto em qualquer hora.

Casciano Lopes

13.6.22

Identificação

As mãos se juntam numa prece,
se estendem num gesto pedinte,
amortecem uma queda,
abraçam e apertam,
afagam e aplacam o que dói,
enxugam pranto e até provocam choro...
Bom mesmo é quando elas se entrelaçam,
assinam compromisso,
desenham estradas no caminho da gente
onde outrora haviam becos...
Bom é quando sabem dizer sem palavras,
só no toque da calma,
que as digitais se fundiram
e que o reconhecimento
se tornou uno em duas mãos,
que distintas foram ontem,
e que hoje são exclusivas...
As mãos que se encontraram.

Casciano Lopes



Num cartório perto de você

Ainda há tempo de lavrar num papel de pão
um compromisso sério com a vida,
o de mirar com coragem
toda a covardia fraca do desamor.

Casciano Lopes



12.6.22

De caso

O que vejo em mim
é o mundo que sonho
e o que vejo no mundo
é minha cara metade desejada.

Casciano Lopes



Perguntam o segredo...

É todo dia namorar,
fazer de qualquer olhada
um primeiro encontro.
Manter o perfume da descoberta,
fazer do café da manhã
uma padaria de possibilidades
e ainda voltar pra casa se sentindo valente.
Como um Valentino,
... um mascote de juras.
Isso, todo dia!

Casciano Lopes

Nossos junhos no varal - 12.06.2022

Sabemos das estações meu amor; conhecemos o inverno com suas rajadas e estocamos colo nos verões abrasadores. Entendemos o outono que poda os galhos e reservamos buquês nas primaveras tantas que coloriram nossa cama e mesa.
Ao longo do relógio de marcar o tempo das viradas, descobrimos como buscar nosso sol... Bastava colocar nossos corações juntinhos no varal e ele vinha... Todo quentinho, iluminar nossa maneira de acreditar que tudo passa ao mesmo tempo em que tudo é pra sempre.
Por isso ficamos eternos, ensolarados, assim... Tostadinhos de amor no ponto da eternidade. 26 junhos se passaram desse nosso encontro dentre tantos que foram antes, e tantos mais que virão depois. Descobrimos que o que conta mesmo, é a incidência de luz em cada canto nosso de viver; seja num quintal de quarar nossos corpos, seja num quarto de agasalhar nosso frio... Mas que seja sempre abrigo nosso amor, o sol particular que tem aquecido nossa chama gêmea.
Te amo eterno namorado.

Casciano Lopes

11.6.22

Beleza eterna

O que um dia foi bonito,
jamais perderá a boniteza.
Ficará bonito dentro de mim.

Casciano Lopes

Rendeira minha

A renda que você deixou,
o orvalho molhou.
As coisas que você ensinou,
em arte frutificou.
Ficou em mim e em toda a cidade,
rendada a vida que você bordou.

Casciano Lopes

Modo ativado

Nascer no modo florir,
diz sobre posturas
aromatizadas ao longo da roda.
Como no tarô temos a roda da fortuna;
na vida temos a roda gigante.
É preciso brincar de posições
com a mesma essência capaz de flor,
pois é mais sobre o que exalamos
do que em que posição estamos.
Estando sobre ou sob canteiros,
não se deve apagar o perfume,
aliás,
ele é que nos lembra
que a vocação do que somos
é se manter aceso,
em flor.

Casciano Lopes

Ainda é sobre cuidar

Saber da importância dos campos não é suficiente, é preciso meter as mãos na terra, é necessário lançar as sementes, molhar o chão, remover as pragas.
Se preciso for, deitar-se na grama e ser o adubo a partir da força que temos escondida em nosso celeiro de acreditar.
Só assim, cumpriremos o propósito de unidade, entre nós e o grande ventre de crescer belezas. Unicidade.
É ao que se destina a vida; vale para todas as nossas casas e relações, do mundo que avistamos da janela ao nosso interior quando fechamos a porta de dormir.

Casciano Lopes

Molhe o sertão

Quando entender teu corpo como uma festa,
abra mais que depressa
as comportas dos rios que correm em ti,
liberte as correntezas que vivem em represa
e dance todos os ritmos que tua história sempre ensaiou.
Os contos...
As tuas águas saberão cantar
pra que a tua luz possa bailar.

Casciano Lopes

10.6.22

Verso-multi

Tudo acaba...
O açúcar do pote
O ano letivo
A pilha da lanterna
A leitura da ode
A dor diante do lenitivo
O barulho e a baderna.
Tudo.
Só não finda
o que vive em estado de mundo,
alinhando o sorriso
como se arrumasse planetas
e olhando o silêncio
como se riscasse descobertas.

Casciano Lopes

Os fins justificam... Mesmo que eu não conheça o começo

Ainda que eu desconheça a origem do que vive em mim e de minhas lidas mais antigas, quero poder escolher ser viga que sustenta a missão e que, vire sólida a construção, que seja firme a instalação e que hospede minha própria admiração quando de novo eu precisar passar por ela sem conhecer origens.

Casciano Lopes

Sem alarde

Vou encontrar um sentido pra calçada
que se deita perto de uma cerejeira,
só pra que não se machuque
a pétala que cai por ser flor.
E se depois eu não achar,
me deito pra fazer sentido em mim
o perfume da flor calçada.

Casciano Lopes

Aumente o volume

O que hoje me mantém na frequência, morou na fazenda.
Tinha o hábito de viver dependurado em parede, feito rádio de pilha.
Costumava morar em pote de barro, feito água fresca.
Descansava em assoalhos encerados e se abrigava nos telhados que pareciam costurados por teias de picumã.
Foi o encantamento que detalhou minha criança, permeou as frestas que ventavam os casos em torno do fogão à lenha e mantinham o frio do banheiro das pererecas que aterrorizavam a nudez dos banhos de canequinha.
Encantamento é a palavra que me sintoniza, que me tira das ondas curtas pra frequência modulada num passe de ondas médias.
Devo a essa estação minhas paredes encantadas.

Casciano Lopes

Operação vivente

Todo dia
eu quero agradecer
e assim vou amadurecer...
Sabendo que pra reclamar
basta querer,
já pra agradecer
basta viver.
Então vivo.

Casciano Lopes 

Onde tudo é luz

Acho de um encantamento
o que clareia a estrada da gente!
Isso vale pro sol,
pro aconchego de um abraço
e pra nossa face que fica iluminada
na chama dos que se iluminaram.

Casciano Lopes

7.6.22

Pensando... Pensando

Estava caminhando desprevenidamente,
como o faz um bebê;
sem pretensão de alcançar a bolsa de valores...
Embora fosse de um valor inestimável
o objeto avistado.
Não sei que força de atração existia nesse desejo,
sei que até hoje essa força me move.
E foi assim,
caminhando sempre,
que fui salpicado por calêndulas
numa das andanças e desde então,
fiquei fácil de vingar.

Casciano Lopes



Longo passeio

Viajei longe, arrisquei mesmo! Usei meus recursos, gastei meus bônus e até parcelei alguns souvenirs na viagem.
Paguei à vista o encontro que buscava, não só dos lugares paradisíacos, mas de quem estava nesses lugares. E que vista!
Embarquei e fui.
Viagem longa!
Ganhei créditos pra voltar lá, fui bem recebido, me senti acolhido.
Onde? Ah, esqueci de dizer: viajei pra dentro de mim...
Tive até que superar o medo de mergulho, mergulhei e quase não quis voltar. Aliás, nem sei se voltei.

Casciano Lopes

Jardinagem

Quando o jardim escorregar no jardineiro,
talvez seja a hora
dos canteiros calçarem perfume de flor;
o aroma não impede,
mas amortece a queda em si,
numa escala de rosas com tom floral.

Casciano Lopes

Nada excedido

O que mantém os ponteiros em sincronia,
seja do relógio ou da balança;
não é o quão dinâmico um corpo pode ser,
é quão passivamente a alma pode correr
por ser leve, em favor do vento,
ou a favor dele, ativamente leve.

Casciano Lopes

Esse ciclo que me constrói

Com os dias,
o que mais fica em mim ironicamente,
são os que não ficaram por força maior,
inclusive memoráveis dias.
Mas há as novas manhãs
que trazem possibilidades
de construção de novas memórias...
Então,
começo tudo de novo;
pra que no futuro seja de novo
memorável esse hoje.

Casciano Lopes



5.6.22

Menino feito de Neruda

Querido diário, sei que os dias vão tingir suas páginas de um amarelo que só os velhos conhecem, aliás, foram eles que me contaram sobre a ação dessa cor.
Também sei, sobre aprender novas letras que me farão esquecer das cantigas que aprendi com Mariazinha no quintal de casa, onde brincam os pintinhos amarelinhos; inclusive eles crescem e perdem essa cor... Acho que o amarelo tem mesmo algo de perverso...
Diário meu, quero pedir que se possível, mantenha a cor original das linhas em que falo da ponte no fim da rua de casa, pois ela me permite brincar no mundo do outro lado e quando canso, posso voltar e dormir em casa ouvindo a cantoria de minha mãe na cozinha.
Não sei se posso, mas acho que devo proibir o amarelo nessa linha. Assim, quando eu crescer e chover cores pesadas sobre o tempo de escrever, quero voltar pela ponte e ler claramente as letras que escrevi nessas linhas brancas.
Assim, de calças curtas e meias, numa mesa pequena, firmo o compromisso de voltar aqui toda vez que quiser crescer demais... E não estou brincando, viu? Você tem linhas e eu tenho o lápis...
Combinado e assinado; o menino colorido, sem amarelo.

Casciano Lopes




4.6.22

Conversa de ponteiros

Que horas são?

Tem a hora do sorriso,
a minha preferida.
A hora do almoço,
boa pra quem conquistou algo além do prato.
A hora da Ave Maria,
ideal pra quem já careceu de oratório.
A hora de zerar o cronômetro,
justíssima com quem quitou seus débitos.
Ei... E tem aquela de meter os pés no chão;
recomendo fazer isso com delicadeza
pra que o tiro de largada
não alargue demais tua capacidade de ouvir.
E aí seu moço, sou o tempo e o que vai querer?
Não tenho todo o tempo do mundo!

Casciano Lopes

Palavras em linhas de correr

Escrevo porque a vida é aço duro que corre em nossas veias, porque se cruzam em nossas artérias em todo o tempo o querer e o poder, porque brincam de destino nos vasos a escolha e a consequência, feito trilhos que toda hora causam desvios; optados e alheios ao nosso controle.
Escrevo porque sou controlador de tráfego, mas também sou o trem que corre ferrovia, sou o passageiro apertado do horário de pico, sou a bolsa de mão do menino sem pressa, sou a vista da janela dos que puderam sentar...
Ah! Mas gosto mesmo, é de quando sou estação, de quando sou o relógio dela; quando encontro as chegadas, sabendo das partidas.
Estação é coisa de volta pra casa, aí escrevo.

Casciano Lopes

3.6.22

Carta de localização

Não dá tempo
de morar em todos os lugares,
de salgar todas as praias,
de abraçar o canto de todas as aves,
de beijar todos os passageiros...
Não dá tempo
de emprestar colo pra todas as ferrovias,
embarcações e seus canais,
não dá tempo pras rodovias
costurarem em mim o mapa dos continentes.
Não dá pros aviões desmentirem ou construirem
rotas sobre todos os meus oceanos
e minhas próprias árvores da orla,
sombrearão um futuro onde não haverá meu tempo.
E é por essas razões todas,
que vivo tudo em mim:
moro, navego, trafego...
'Me oceano' inteiro pra que então ao final,
eu tenha morado todo em todos os lugares
e abraçado toda gente.

Casciano Lopes

6/12

Junhos...
Trazem no bolso
a beleza guardada,
brincam de esconder
nos agasalhos os abraços,
deixam do lado de dentro
as aquecidas possibilidades
e misturam nosso olhar
de adivinhação do que está além.
A metade de nosso inteiro,
o inteiro interior das metades.
Nosso 'fora' e o 'dentro' do outro
Nosso 'dentro' e o 'fora' do outro
Capazes de atravessarmos somos...
O xadrez e o listrado da junina
barraca de inverno.

Casciano Lopes




1.6.22

Amar pois há mar

Da água do mar guardo a primeira vez, a sensação de que ainda não tinha vivido pra contar a vida, guardo.
Foi como um parto, parecia que nascia de mim aquele mundo de ondas.
Eu pari naquele dia com todos os ais e sais um ser líquido e que até hoje, vive em mim como acontece com os filhos que crescem e continuam cabendo no ventre de guardar a gente.
Por isso que quando me pego querendo envelhecer, corro pra lá, busco nas areias de avistar meu filho, a dor amada que me traduz num jovem parturiente e me dou à luz em mar.

Casciano Lopes

31.5.22

Esquina de vender gente

Vai além da vitrine
o manequim exposto,
ele viaja pela rua
em estado estático,
ele conversa
com os amigos imaginários
e discute ideias filosóficas
com os pensadores que passam,
que como ele,
independem de passeios,
quando podem fazer do pensamento
sua passarela de caminhar...
Tudo isso,
através do olhar de vidro,
feito de vitrine.

Casciano Lopes

Crime da rua das palavras

Quando o carteiro rasgou o portão lá de casa, empunhado de uma carta, tropeçou nos meus degraus e caiu por cima das linhas afiadas.
Eu, da janela riscada de ansiedade, saudade e pesaroso da queda tudo ao mesmo tempo, balbuciei um endereço pra descobrir o remetente e sem que o envelope respondesse um selo em sinal ao destinatário, achei que era grave.
Me apressei feito telegrama e abri a porta como quem tem pressa de escrever notícia: quando encontrei na varanda uma poça de letras vazando um homem curioso com um envelope rasgado na mão.

Casciano Lopes

Auto das horas

De noite, quando bate em mim o sino da missa,
sou o sacerdote de minha reza,
por vezes me sinto um terço dedilhado
e outras vezes sou os dedos calejados,
mantrando as contas de prece.
Há badaladas tão intensas,
que me sopram do altar
onde estou servindo de vestimenta,
mudam pro chão minhas pétalas
e deslocam o vaso que as amparam
em direção contrária ao lugar que é seguro estar;
e sou o lugar, o vaso e o chão.
Noite tem sempre algo de clamor
e eu me descubro vela e castiçal
de acompanhamento da ladainha...
Ora, o mais importante não é quem sou,
é o que a noite é em mim,
o que ela professa dentro de alguém
que sabe dela como sabe do dia,
importa por quem os sinos dobram.

Casciano Lopes

Toc toc

Quando ele chega à porta da frente,
temos o ímpeto da fuga pela porta dos fundos.
Talvez fosse o caso de recebê-lo,
colocá-lo no melhor lugar da sala,
nos postar diante dele e ouví-lo
até que conclua sua intenção.
Fugirmos é perda de tempo
quando o Tempo nos visita e convida a anfitrião.
Somos todos salas de estar deste ilustre senhor...
Se com anseio e asseio o tratarmos,
talvez ele goste de ficar.

Casciano Lopes

30.5.22

Vacinado de pequeno

Ainda é menino em mim
o desejo arteiro de achar
que tudo no mundo é quintal de casa,
de pensar as feras
como dóceis coelhos da minha toca.
E hoje em posse da minha cartola,
talvez envelheça imune
aos monstros da caverna.

Casciano Lopes

29.5.22

É de contar

As histórias que me descrevem
começaram antes do meu nascer
e meu entorno diz
que não findarão nunca.

Casciano Lopes

Findo

Não é no começo.
Não é no meio.
É no fim que nos conhecemos.
E que finalmente com o conhecimento,
entendemos das tolas falas,
compreendemos das falsas juras.
E percebemos,
que se conhecer é suposição.
Por fim,
não nos conhecemos então,
e isso entendemos por ocasião.

Casciano Lopes

O poema e a sentinela

Dorme a madrugada com seus tons de lua fria,
sem os sons de rua,
que vazia clama o silêncio dos que dormem.
Apaga-se como que por decreto
a velocidade da vontade que se dá por dormida.
Enquanto as luzes cumprem o ofício de vigiar
a porta da cidade e dos que acordam.

Casciano Lopes

Ainda podemos carregar flores

Sim,
podemos transportar aromas em nossa vasilha:
de alumínio novo ou furadinho pelo tempo.
Recomenda-se neste caso
não usar nenhuma espécie de tapa furo.
Essência não pesa e,
caso escape desavisadamente,
no máximo envolverá os desprovidos dela.
Pensando bem,
há recipientes furados em todas as idades do viver e,
neste caso,
concluo que furadinhos não causam danos;
provocam flores.

Casciano Lopes

Máxima crença

Creio na criança que corre na praia como se a areia brincasse com ela.
Creio na andorinha que protege seu ninho dando bicadas no cangote do falcão.
Creio na cama de palha que abriga o lavrador do milho antes que outro dia amanheça.
Creio na batalha que o amor enfrenta todo dia pra convencer o ódio de que não vale a pena a pena de escrever crueldade.
Creio na mãe que amamenta seu bebê sem garantias de que ele um dia entenderá do compartilhamento de pães.
Creio na profecia do sol quando ilumina os homens bons e maus e volta no dia seguinte, porque prometeu.
Creio na poesia que as pessoas que amam escrevem muitas vezes sem uma única palavra, apenas abraçando os que não ganharam um toque de amor de ninguém, nem dos que não criam...
Por isso creio.

Casciano Lopes

28.5.22

Dentro do trem estou

Eu podia não fazer nada...
Poderia não elaborar
e haveria motivo pra apatia.
Mas isso,
me transportaria pra 'terra do não'
e comprei o bilhete antes de nascer
pra terra do sim.

Casciano Lopes

Prefiro a dúvida absoluta

Convicção quase sempre é castigo.
No campo das ideias,
a busca é movimento
e o encontro é paralisia.

Casciano Lopes

Poesia líquida

Ainda encontro um jeito
de fazer o rio nadar o peixe
e de surpeender uma garça
em traje de banho
preparando seu mergulho.

Casciano Lopes

27.5.22

Do nome da rosa

O espinho da rosa é só dela,
o perfume é de toda gente.

Casciano Lopes

Pecado é calar

A oralidade da reza vem;
a santidade pode baixar em mim,
no pomar do terreiro,
na ave do poleiro,
no porteiro do prédio,
na semente do chão
ou na flor que cresce no passeio...
No espinho só seu
ou no perfume doado inteiro.
Não é blasfêmia ser santo
e ver santo cada instante;
é altar o poder de falar
e de dar voz aos deuses.

Casciano Lopes

Poeta noturno

A gente carrega na pele o que era pra ficar escrito, o que merecia ser dito e aquilo que os dias se recusaram a apagar.
A gente cai em desuso se não sorri da vida e pra vida; da própria vida.
E em posse delas: da vida e da pele antes que se rasguem e se percam entre os retalhos da biblioteca, é preciso virar riso dentro dos artigos evidenciados nas linhas da gente.
O lábio e o olhar de uma face sisuda, poderão ser interpretados como um borrão na leitura do livro pessoal que viemos escrever.
A gente precisa saber que sim, a pele rasga; a história não...
E se estiver borrada, ninguem lê.

Casciano Lopes

25.5.22

Vertical

Na esfera de inspirante,
derrubar a cabeça é esperado,
mas o que contará como digna essa espera,
é a capacidade de retomada da postura aspirante,
da ponta do nariz na linha do horizonte;
e é o que fará a diferença
enquanto o respirante
não alcançar o mérito de expirante.

Casciano Lopes



24.5.22

Cinquenta mais um

Os que acreditam
estão em maior número
e isso basta
pra fazer do caos uma estrela.
E então sigo,
tornando habitável um corpo,
não porque seja de carne,
mas de coragem num mundo capaz.

Casciano Lopes

22.5.22

Desértica vista e a capacidade

Os desertos despertam calangos em nós,
desertos que cavam nossas areias ferventes
e despertam nascentes,
onde de cócoras nos saciamos
pra que não morramos...
Nós e os calangos,
espécies de sobreviventes.

Casciano Lopes

Elementar

Tem os rios,
as pedras necessárias para a firmeza de seu leito.
Tem os ventos,
as paredes necessárias para compor as melodias do assobio.
Tem os campos,
as montanhas necessárias para murar os refúgios da inspiração.
Tem as labaredas,
o calor necessário para espalhar o lume no caminho da procura.
Tem sempre uma emoção no bolso da razão.

Casciano Lopes

Nada subordinada

Acreditar
ainda é
um verbo
com poder
de
mudar a oração.

Casciano Lopes 

20.5.22

Mundão de rir é mar

Não posso esconder
numa caixa de lembranças,
a lágrima.
Ela corre,
é liquida.
E de papel é a caixa
como de barro é a face,
vira lama o leito de correr.
Absorve toda água
antes que chegue aos pés,
antes que atinja o mar.
Comportas não há pra barrar.
Essa represa que de vez em quando,
faz cortina na janela de olhar,
há de estiar como chuva que passa
pro sol chegar e aí...
Vem sorriso que é um mar
sem nem precisar chorar.

Casciano Lopes

19.5.22

Reserva em verniz

Minha mesa ficou arranhada por tua dicção,
tua versada capacidade de locução
ainda diz verbos pras cadeiras
que elas pesquisam pra encontrar uma definição.
Os lugares de minha casa
foram definitivamente ocupados
e a mesa está sempre reservada.

Casciano Lopes

Diacrítico

Sentado em minhas lembranças,
encontro quem passou
e quem ficou do meu lado de dentro.
É claro que tateio os lugares vazios
e cheios de memórias simultaneamente,
é claro que o lenço não dá conta da ausência!
Mas,
também é certo que o assento dentro de mim
ficou pra sempre ocupado
e ganhou acentuação todas as minhas sílabas desde então,
de forma que tudo que hoje sai de mim
tem a força da palavra bem acompanhada.

Casciano Lopes

Amanhã, hoje não

Sempre que fico triste,
me lembro que a tristeza
não é casa de morar,
no máximo é uma pousada
de passar a noite.
E quando levanto a cabeça
junto com o corpo de manhã,
encontro sempre acima
de minhas passageiras necessidades,
motivos pra alegria.
É quando faço as malas
e entendo que terminou o lamento
e volto pra casa onde de fato moro...
feliz.

Casciano Lopes

Afetado por ondas

Quando vi
Quando o mar
Quando era noite
Quando a primeira vez
Quando o som das águas
Quando bateu de costas em mim
O som nunca mais fugiu, do mar inteiro
No inteiro de mim.

Casciano Lopes

18.5.22

Dormida cumprida, ou não

Depois da tarde,
depois das 18 horas,
depois do findo espetáculo em praça pública,
depois da maioridade das vontades,
depois da maturidade das promessas...

Vem o fim do movimento em cena,
vem e encena dentro da gente o desejo:
negado ou permitido,
a fome e a sede misturadas;
sem noção de saciedade.

Aí nosso peito feito cais,
ancora as perguntas e se joga até o fim da noite,
buscando uma ponta de praia de respostas,
onde possamos nos dar por fim,
uma explicação antes que seja tarde pra dormir.

Casciano Lopes

Fragrância indiscutível

Poderá um frasco de perfume, de vidro ou plástico, elaborado ou simples, grande ou pequeno, frágil ou forte... passar a vida, antes que se quebre, que se esvazie ou que se torne descartável, lutando contra seu conteúdo, revoltado com a fórmula que o preenche, discutindo o aroma que o permeia?
Poderá?
Poderá.
Só precisa saber a embalagem que sua função é a de armazenamento e não a de questionamento.
Um perfume não deixa sua essência em função do olfato do compartimento, ele não quebra o pacto a que se destina, não pode negar sua missão de inebriar de conteúdo seus meios... E essa façanha desafiante, começa por aquele que o contém.

Casciano Lopes

17.5.22

Os contrastes formam um dia inteiro

Ainda há sombra quando há luz,
por isso cuidemos depressa do nosso sol particular,
cuidando não deixar o sombreado
sem um toque de vista.

Casciano Lopes

Parlamento

Não fosse o olhar, o governador de tantas cidades,
talvez se perdesse a paisagem
dentro das burocracias de outros parlamentares.

Casciano Lopes

Lentidão permitida

Dois corpos se chocaram na marquise de um prédio.
Assim me contou um andante daquela calçada.
Eu, que longe da cena estava, entendi:
a pressa esbarrou na calma,
já que soube que um deles estava parado na observação.
De modo que fica estabelecido
a partir de então naquela via,
multa de redução de avistamentos
pra qualquer desavisado
que ultrapasse os limites da contemplação.

Casciano Lopes

Em face dele

O tempo é coisa que corre no canto do olho,
não raras vezes,
senta-se sobre a cabeça e põe-se a observar,
brinca nas adjacências dos lábios
e ensina o silêncio enquanto vinca o barulho dele próprio,
o tempo.
Ele cala em nós a velocidade,
como se com isso dissesse:
ande devagar,
aprecie a pele que veste cada ida,
assim como visto a pele de cada volta,
assim é possível a troca de pele.
É coisa de tempo.

Casciano Lopes

16.5.22

Deixa a onda cuidar

Fui juntando o que não tinha palavras...
Um risinho bobo aqui,
uma saudade sem abraço ali,
uma olhada de soslaio acolá.
E uma piscadinha tímida
com jeito de amanhecida feito pão dormido,
guardei pra amanhã.
Enfim,
a água salgada do meu poço
deixei bagunçada mesmo,
é feito mar, não compensa arrumar.

Casciano Lopes

Gestos largos

Quando sorrir,
sorrias devagar...
Há quem precise medir
A largura de teu sorriso.

Casciano Lopes

13.5.22

Lugar de prece

Já morei num quarto, pequeno e grande; já morei.
Passei por casas médias, confortáveis e espaçosas. Outras apertadinhas sanfonavam aconchego.
Vivi em porões e alturas; módulos em casas, apartamentos e assobradados.
Da chave do portão ao serviço de abrir e fechar; já tive.
Em endereços de casas grandes residi e entre jardins já fiz quintal onde colocava as roupas no varal.
Já mudei de rua e cidade, já dividi banheiro e silêncio... Sim, já fiz; de edícula um castelo e templo, de morar e de consagrar.
Mas de verdade, onde rezei, foi dentro de mim, onde sempre morei primeiro, em meu lugar derradeiro.

Casciano Lopes

Bate cara

Onde começa?
A certeza que não tem resposta,
a dúvida que não sabe perguntar.
Onde?
A dor sem mapa de leitura,
a pressa sem relógio e sem pulso,
a vista cansada sem cadeiras pras meninas.
Começa quando?
A sombra em que descansa o pensamento,
as águas em que banham os lamentos,
a grama em que se deita pra descansar
o recreio dos que brincaram de esconde-esconde,
onde?

Casciano Lopes

Foco em foto

A vida corria sobre a pequena mesa;
os galhos secos de outonos antigos no quintal,
contavam casos e que pássaros neles pousados,
ouviam e musicavam com afinada observação.
Apolo, um barbudinho de gorro verde,
sempre disposto pra fotografia,
cuidava da cena, zelava da entrada de luz
e fazia do cenário um trecho estático no movimento da vida;
que corria.

Casciano Lopes

Pensa(dor)

Pensando aqui...
Onde é que a saudade vai dar?
Porque será que a gente é tão feito de abraço...
Me diga!

Casciano Lopes

12.5.22

GPS de mim

Um lugar de morar precisa caber sonhos.
Precisa ser bem dividido o espaço entre sono e insônia,
pra que em qualquer cômodo caiba a capacidade de sonhar,
mesmo que acordado.
Que não falte corpo,
que seja de carne e espírito a cama de se deitar,
de nervos e ossos as colunas de se apoiar,
de amor e intuição o teto e o chão de abrigar;
Tudo isso dentro de quase nada...
Um endereço de morar.

Casciano Lopes



Compota de troca

A doçura não atravessa a rua sozinha,
feito criança miúda precisa de mãos.
Até de colo cedido pela atenção 
necessita pra continuar doce, a doçura.
E se o fluxo estiver amargo feito horário de pico;
dar chance ao mel pode ser um remédio adocicado
pra sarar a falta de travessia.

Casciano Lopes

Paladar visto, temos nosso próprio tempo de ouvido

Mastigando o tempo com um jeito calmo de olhar, sem pressa de passar e se demorando nos pratos elaborados; é possível a memória dos sabores, o olfato dos temperos e a intuição da louça usada no serviço de servir; sim, até a audição é capaz de perceber o ritmo dos talheres no burburinho dos convidados em volta da mesa.
Estar atento, requer mais do silêncio nas ruas dos olhos, que das buzinas nas avenidas da boca.

Casciano Lopes

Vontade sem cela

Há sim,
grades que meus olhos podem tocar,
como há aquelas escondidas da retina,
que só podem ser tocadas
pela coragem da alma.

Casciano Lopes

9.5.22

Asfalto em lâmina d'água

Ainda arrumo um tempo
pra brincar a chuva
que não choveu.

Casciano Lopes

Atrás da lona

Hoje eu queria exagerar no palco,
carregar nas tintas do rosto,
colocar minhas calças largas e os sapatos bicudos,
puxar pra dança minha peruca colorida
e dedilhar o riso por meu suspensório...
Mas é meu dia de folga.

Casciano Lopes

Mesa posta

Caminhos feito de amor e cuidado,
moram com a gratidão,
vivem na alegria como coisa séria
e todos os dias tomam café aqui em casa...
Talvez por isso,
o viver sempre encontra jeito
quando vira beco o caminhar.

Casciano Lopes

Uma super Mãe

O que eu dizia pra senhora,
o que eu contava e confessava...
Era só ali,
naquele confessionário
feito de ouvido e coração de mãe.
Nunca perdi meus medos
com tanto desprendimento,
como quando a senhora
colocava sobre eles o seu olhar.
Nossa distância,
hoje de mundos,
me leva pra morar na infância,
onde éramos todos eternos;
eu, a senhora e o nosso lugar sem medo...
Num mesmo mundo.

Casciano Lopes

7.5.22

Dado ao segredo daquela água, o gosto que ainda cura

Fui menino de benzedeira.
Tinha tardinha, que de banho tomado e de cabelinho penteado no trim, minha mãe me mandava na casa de Da. Cândida, rezadeira 'das boas'.
Lá ia eu, benzer pra desvirar o ventre, quebrar o quebrante ou quem sabe... Espantar a criança assustada.
Com sorte grande, quem sabe aparecesse os três diagnósticos no chumaço de ervas, me possibilitando alguns dias de idas mágicas na benzeção tomar água de carvão abençoada com meia dúzia de palavra da véinha, ditas tão cochichadas que até hoje, procura ouvir minha audição.
Ah, talvez fosse esse o segredo da cura... O cochicho da reza, como de quem falava com o carvão.
Talvez o mistério de hoje, more num fim de tarde, entre casinhas de madeira, de lenço na cabeça, sentado numa cadeira bamba e atendendo a porta de terço e arruda na mão.

Casciano Lopes

Ainda não sei a história

Pode ser que o sapo do caminho da fazenda,
só estava querendo me contar mais um 'causo'
dentre tantos que por lá ouvi,
quando me tocaiava com seu coachar.
Porque será que eu tinha medo?
Será que era do sapo
ou do que ele tinha pra me contar?

Casciano Lopes

4.5.22

Acesa existência

A gratidão deve chegar antes da reclamação,
da obrigação de dar tudo certo,
da narrativa de super poderes.
É só através da percepção grata de quem sou,
que posso sentir e vibrar tudo
que vive em mim desde sempre.

Casciano Lopes



9 de maio nosso particular

Ainda bem que a vida
nos prepara anjos na terra,
capazes de nos voar por inteiro
quando precisamos de céu.

Casciano Lopes