9.8.25

Porque morre, vive

Numa nesga de mar
Numa imensidão de lua
Ou dentro da experiência
Haverá sempre esperando
Um fôlego de aspiração
Uma inspiração acreditando
Em tudo que respira vida
Enquanto expira o tempo
Por ser eterno sendo finito
Ao mesmo tempo.

Casciano Lopes

Voz ativa

Foi resmungando os contratos, 
que assinei tudo o que gritei como alerta,
ainda sigo, mais calado,
desperto e cumprindo o que vistei,
sussurrando o que aprendi nos tempos de grito.

Casciano Lopes

Somos o nosso compromisso

Se posso te dar um conselho, aproveite a vida; não desmerecendo tuas posses, não omitindo tuas dores, não extrapolando os limites da lealdade, mas aprendendo de humanidade dentro das tuas condições. É possível ser grande, fazer grandes gestos de acolhimento. A vida não tolera desaforos e a alegria está sempre disposta, esperando teu abraço.

Casciano Lopes

No caminho

Ontem caminhei o que hoje me caminha,
a paisagem ainda se modifica,
as pontes ainda me atravessam...
ainda preciso chegar.

Casciano Lopes

E o que não vi de mim

Há memórias que me afastam de mim, outras que eu as afasto de qualquer sombra de recordação, não esquecendo das que distanciam o sonho; porque estas nem merecem o título de memórias, talvez lhes caiam melhor o nome que se dá à condição do febril em delírio... delirantes.
Memórias.
As que me assaltam sem aviso, as vividas nos rascunhos, as não sacramentadas por falta de juramento, as que padeceram de falta de corpo.
As memórias que andam sem roupas por minhas ruas são as dos sabores guardados no meu imaginário sem paladar, são as das folhas que caíram das árvores que não conheci, e que, por não conhecer, não estava lá para lhes amparar a queda, ou sustentar a cor antes que elas se desmanchassem no chão. O padecimento das memórias que me assombram não vem laudado em exames de imagens, é quase diagnosticado por lentes, mas se esconde entre as brochuras do caderno onde escrevo a vida, dificultando a sua captura. Quando escrevo notícias de mim, elas figuram nos álbuns de contar o trato de cada retrato, mas desaparecem à menor tentativa de exibição pública. Essas memórias que suspiram saudade do não vivido, que vivem ajustando-se para caber no meu contentamento é que me ampliam para aguentar a dor do que não vi passar e me diminuem para acomodar o que vi ficar de mim e em mim... memórias e tempo.

Casciano Lopes

7.8.25

Um dia disse o Xamã

Quem escolhe a liberdade
deve estar disposto a pagar o seu preço,
nem os pássaros se safam de, 
vez ou outra,
se chocarem com vidraças.

Casciano Lopes

Entre picos

Além das montanhas existem planícies...
há belezas só vistas nas altitudes,
mas também careço
da atitude plana do caminho
quando se deita em mim para ser apreciado.

Casciano Lopes

5.8.25

Papo aprendido

Não sei do que falavam as ervas, daninhas ou não, que cresceram em meus quintais. Sei que conversavam, sei que davam as mãos em prece e juras, e me ensinaram sobre constância. De modo que nunca fui de eventuais promessas, sou do constante desafio de viver entrelaçado com o que acredito... prometido.

Casciano Lopes

Leituras e linhas

Traço a reta
como quem usa régua,
mas sabendo das curvas
calo o papel
pra caber o compasso
onde faço o passo.

Casciano Lopes

Capaz de chegar

O destino me leva,
a força não vem da pessoa forte,
vem da fragilidade que mora na audácia.

Casciano Lopes

Choro derradeiro

As lágrimas chovidas nadam
na precipitação do tempo...
quando finda sua função,
secam-se os abrigos e o lenço
se dobra diante do fim.

Casciano Lopes

30.7.25

Ondas em haver

Há de ter uma passagem secreta
para o mar que atravessa a noite
do meu jeito de tatear.

Casciano Lopes

Na galeria da vida

Os pincéis que nos retratam
precisam de motivos,
são das tintas que viemos misturar,
que nasce a exposição.

Casciano Lopes

Bússola de pulso

Meus heróis estão espalhados em mim,
vivem espraiados em meus caminhos,
figuram nas paredes de meu contorno
pra que eu não me perca.

Casciano Lopes

27.7.25

Altar da fala

Eu quero só a verdade estampada na cara dos que passam...
passo e passam todos.
O tempo das palavras deve ser um templo
onde beatificamos as atitudes na santidade da existência.

Casciano Lopes

23.7.25

Mãos de ida

Eu não quero mais do que o que posso deixar.
Não preciso mais do que o que posso carregar.
Luto todos os dias para abrir mão da amargura
que torna amarga a água que tenho.
Sei que a sede também é minha,
assim como são as mãos em conchas para bebê-la.
Minhas... única posse, que estejam doces na despedida.

Casciano Lopes

20.7.25

Fluxo e abraço

Somos apenas um encontro...
de rios
de tempos
de aromas
de sonhos
Somos caminhos que esperam...
destinos
partidas
chegadas
encontros.

Casciano Lopes

18.7.25

Reta de conduta

Morre um pouco...
O bom moço quando lhe faltam com o fino trato.
Os bons modos quando a gentileza lhe é negada.
A palavra doce quando o vocabulário lhe decepciona.
As risadas quando o circo tem a lona afanada.
Por fim, morre o palhaço de tanto 'um pouco'.

Casciano Lopes

Tempo curvado

A tua fotografia,
a que guardo em mim,
é aquela que conta tudo que ouvi e sei,
me diz tanto do menino que fui e sou,
quanto do velho que serei e estou.

Continuo te olhando como quem olha o tempo,
correndo com ele,
e oferecendo a ele o mesmo olhar que tinhas,
este que a tua lembrança ainda me lembra...
o de reverência.

Casciano Lopes

Jornada de mãe e filho

Então não a perdi, ela vive dentro de mim todos os dias.
Ainda conversamos diariamente como fizemos nos seus últimos anos, ocorre que agora, suas falas ressoam nos ouvidos da minha alma, seu riso farto faz palco pros meus textos, onde aprendo o meu público.
Ela se mudou, foi pra onde acredito e credito minha força, vive lá com as cartas que recebi da vida e com as que escrevo pra forma mais eterna de se sentir o amor e sua eficiente maneira de eternidade.
O carteiro ainda se atrapalha com a entrega, a saudade tem dessas coisas... tem endereço fixo, mas guarda em segredo o seu lugar.

Casciano Lopes