20.12.24

Era uma vez...

Um atrevido lugar
que ousou ser conto,
ser um ponto no encontro,
uma outra forma
de contar o tempo,
atreveu-se a contar...
contou.

Casciano Lopes

Homem ao mar

Se não me ouvir
Se não me ver
Se não me ler
Me beba,
sou a mensagem
da garrafa.

Casciano Lopes

19.12.24

Lampião de viajante

Registrei a luz
pra lembrar de que
estar só não é escuridão...
a gente tem que acender,
onde estiver
e com quem estiver.

Casciano Lopes

Oferecer flores

Se por desmantelo ou descuido
uma flor me cair dos cabelos,
recolha com cuidado,
pendure na alça da bolsa,
na lapela do casaco ou
carregue dentro de um solitário 
precisado de jardim...
meus cabelos seguirão com o perfume,
despidos da flor, calvo em seus canteiros,
mas em constante lugar de plantação.

Casciano Lopes

Postagem

Escrevo...
ainda assim,
o meu delírio
diz que vale a pena.

Casciano Lopes

Emocionado incorrigível

Não perca a esperança por ser romântico, por oferecer melodias sem saber se sabe dançar o ouvinte, por adoçar demais a bebida que vai molhar o coração dos degustadores da emoção que você sente.
Um dia passará na rua que te atravessa um carente de práticas apaixonadas, parará na faixa do cruzamento, estenderá as mãos e pedirá ao seu demasiado estado apaixonado que o ajude a atravessar a vida.
E todas as placas de sinalização acenarão que seu entusiasmo salvou a estrada de alguém de colisões.

Casciano Lopes

18.12.24

Alinhada

Aqui na minha linha,
nada é mero acaso e,
se fosse,
ainda restaria a poesia,
que dispensa o papel se for preciso,
mas nunca desperdiça a tinta.

Casciano Lopes

Eu não sei o que encontro quando abro a porta...

Às vezes levo uma lufada de vento que constipa minha decisão de abri-la, outras vezes, fogem de mim pensamentos que eu mantinha em cárcere privado, vai cambaleando na ventania até uns aborrecimentos que eu alimentava em minha mesa de madeira rústica, marcada de copos suados de outrora. Há sopros fortes que, inclusive, apagam as lamparinas antigas que fazem luz no meu casebre de passar como um café, a vida.
...Mas eu abro a porta.

Casciano Lopes

17.12.24

Servido em prato fundo

Diante da agenda dos dias me apresso,
corro como se ainda fosse menino,
mas é na madrugada que desacelero o calendário,
sento comigo pra encher de prosa os pensamentos e
me descubro mais velho
quando vejo o relógio sem pressa,
comendo minutos como se me devorasse.
E eu, num mundo de suposições,
espero as horas como quem espera
uma realidade menos apressada.

Casciano Lopes

16.12.24

Somos dias

As tardes ficam na gente.
A gente também fica tarde,
depois anoitece e dorme.

Casciano Lopes

À sombra da esperança

Onde nasce a vontade
pode crescer tudo;
até a capacidade
de quem só conhece
a coragem.

Casciano Lopes

Só perfumado

Fui juntando ao longo da vida uns perfumes que me acentuam na caminhada. Posso não ser percebido quando passo, não notado quando chego ou não sentido quando saio, não importa; o indispensável é que eu me note, me torne cada vez mais inspirado nos aromas que se avolumam em minha pele. Sei que levo de cada lugar e de cada pessoa frascos miúdos de essências caras, fragrâncias únicas e que, ao longo dos dias, não me pesam, ao contrário, me flutuam o corpo de percebimento, me transformam em portador de tanta gente inesquecível, tanta realidade servida em vaso de flores, tantos sonhos acontecidos em tons secos e amadeirados de florestas, que já nem sei se sofro, penso que só vivo... em marcantes notas de perfume.

Casciano Lopes

Bastaria

Basta um sorriso no rosto
e uma flor no canteiro
pra chamarmos a vida de jardim.
Basta olhar encantado o dia
e guardar a varinha de condão da infância
pra chamarmos a vida de magia.
Basta...

Casciano Lopes

Fazenda de cuidados

Havia uma paineira na porta de casa, um batedor de roupas ao fundo, um forno de barro a direita, cerca dividindo o pasto, poço de bater papo, galinhas no terreiro, poleiro, pés de amoras espalhados, terços, novenas, fogueiras, bailes na casa da Da. Teresinha, charrete marchando pra cidade, grama de quarar, arame de estender anil, lata de ferver roupa de roça, torrador de café, moinho, pilão, rádio de parede, tara de pão caseiro, taiada de queijo, fogão de lenha sempre quente, água de benzedeira, cochichos de compadres, risadas de comadres, cachimbo, prosa e fumo de rolo, arruda na orelha e canivete no bolso, enxadas embaixo da casa e santa na parede da sala.
Fui cercado por esses cuidados enquanto crescia... e o que lá havia, hoje há em mim e, sabe tanto sobre quem sou que já não sei se mudei de lá um dia.

Casciano Lopes

Intérprete do sei

O mar sei todo; 
do seu sal,
das marés,
das ondas,
dos horizontes que iludem a distância,
da lua que se penteia nas suas águas,
do canto das sereias...
sei.
Até das juras na praia,
das caravelas e marinheiros;
seus pactos,
sei.
E mesmo quando o mar
mora longe de mim
sei de sua pacífica língua
em agitado vocabulário,
embora ele tenha segredos
que não me conta
porque molha o papel
antes que eu tome nota.

Casciano Lopes

E porque sou minha casa

Eu posso recomeçar milhares de vezes, posso retomar uma viagem, um sonho, um encontro marcado em inúmeras tentativas...
O que não posso é me perder no processo, esquecer quem sou, quem fui, quem quero ser. Não devo me descreditar além do que suporta minha autofidelidade, me adoecer por falta do remédio caseiro; aquele que cresce no quintal de casa, que tem o cheiro da intimidade comigo, que divide o espaço dentro de mim com a memória do meu endereço pessoal - que tem residência fixa na minha experiência - e que me diz que sou tão vulnerável quanto uma casa no vendaval, mas tão seguro quanto ela quando fecha suas portas para descansar, mas que as reabre todos os dias pela manhã porque acredita na insistência... a vida insiste e é pra quem insiste sem se perder do caminho, mesmo que retomado dezenas de vezes pelo mesmo caminhante.

Casciano Lopes

5.12.24

Hospedo passarinhos

Tenho passarinhos espalhados pela casa em que vivo. Moram comigo, desde que nasci, vários deles. Habitam gavetas, povoam a biblioteca, enchem a cozinha de cantoria; parecendo ditarem caderno de receita no que é partitura, calam quando passam pelo meu quarto pra ensinar as noites a dormir, madrugam próximos ao bule, piam sobre o sarilho pra animarem meus braços a buscar água.
Vez ou outra encontro filhotes nos meus bolsos e, não raras vezes, outros se enroscam nos meus cabelos. A estes devo as boas ideias, coisas que eles me cantam em segredo e que aprendi traduzir ainda filhote.

Casciano Lopes

4.12.24

Reserva de naufrágio

Alguns saberão lidar com a idade, com suas imperfeições ou causas de suas escolhas...
Outros não, afastarão pessoas pra manter seus problemas fora de foco e atribuirão ao outro o motivo do seu silêncio, só por medo de gastar palavras.

Casciano Lopes

Quando tudo chegar

Quem vai estar lá quando meu lenço encharcar ou quando secar a botija que mora perto do rio?
Quem vai rir comigo quando o mar correr lá pra casa ou quando ficar deserta a praia pra eu me esticar sem roupas na areia?
Quem?
Mar, rio, terra rachada ou pele rasgada de tempo, no corpo molhado de canseira ou na alma quase pronta bronzeada de sol... quem vai estar lá, além de minha vontade?

Casciano Lopes

3.12.24

Milagre da pergunta

Gosto de me hospedar onde mora a dúvida, assim, com a convivência vou entendendo que nada nesta vida garante a certeza; que os dias intercalam temperaturas, que há manhãs ensolaradas que carregam tardes chuvosas, que tardes nubladas despedem-se para que noites estreladas ocupem o palco, que semanas difíceis são precedidas por feriados de santos, que pessoas nascem como motivos, enquanto outras morrem por falta deles no mesmo dia.
A vida é um 'não sei' cheio de certezas.
Não saber, achando que sabe, traz a opinião; sei disso... Porém a dúvida me faz buscar a resposta, e encontrá-la não deve ser a meta, deve ser o motivo que me tira da inércia para a ação.

Casciano Lopes

Por fim, que eu saiba ser etéreo

Que eu saiba calar
quando passar o vento.
Que eu saiba me despir
quando a chuva bater na porta.
Que eu saiba controlar a febre
quando for vizinho de um vulcão.
Que eu saiba nascer todo dia
e brotar se precisar de chão.
Que eu saiba ser forjado
sem perder o fio da lâmina.
Que eu saiba durar o necessário,
feito madeira que se empresta aos anos.
Amém.

Casciano Lopes

A gente quer ficar

Na vida e que ela não se acabe.
Nas pessoas e que elas não se percam de nós.
Nas festas e que elas não saibam findar.
No riso e que ele desconheça o seu contrário.
Na melhor idade e que saibam disso
todos os sentidos, a memória e os joelhos.
No fundo queremos motivos pra negociar...
porque a gente quer ficar.

Casciano Lopes

Onde tudo vira mar

O mar açoita a rocha e segue seu caminho, lambe a areia da praia, quebra ondas e decora a orla; não porque seja perverso ou prepotente, mas porque é mar cumprindo sua missão.
A rocha também está lá nas encostas cumprindo sua tarefa, seu caminho e ao que se destina... resignada.
Também somos um dever, uma realidade no cenário... um pedaço de areia, um braço de mar, uma paisagem em movimento, uma 'pedra fundamental' na construção da vida em curso.

Casciano Lopes

Trocamos olhares

Acho que fiz o curso de cabeleireiro só pra cuidar dos cabelos dela.
Me formei em 2010 e foram 10 anos cuidando daqueles cabelos...
Ela nunca tinha ido a um salão, feito um penteado ou coisa assim.
Por uma década, pintei, hidratei, cortei, escovei, fiz penteados que nós dois amávamos os resultados.
Tivemos muita prosa naquela cadeira, no tempo das colorações. Muita troca.
Em 2020, quando já não mais pintava seus prateados fios, fiz seu último corte... me permitiu cortar bastante além dos poucos centímetros de sempre. Concordamos em fazer um 'batidinho na nuca', vulgo 'escovinha', pra não precisar raspar por conta do processo quimioterápico; ela e eu nos doeríamos sem medida e além da causa, dado o estado dela, acordamos manter toda a nossa cumplicidade naquele último corte.
Dessa vez não trocamos uma única palavra, apenas consentimentos.
Fiz com ela ali uma viagem ao passado, devolvi aquela imagem da mãe de minha infância, de cabelos curtinhos e vaidosa... quando terminei o corte, levei a cadeira de rodas dela diante do espelho e, ali, nos olhamos profundamente nos olhos refletidos e nos entendemos mais uma vez. Depois disso tivemos poucos últimos olhares de um pro outro.
Mãe... de lá pra cá, nunca mais cortei um cabelo.

Casciano Lopes