20.12.24

Era uma vez...

Um atrevido lugar
que ousou ser conto,
ser um ponto no encontro,
uma outra forma
de contar o tempo,
atreveu-se a contar...
contou.

Casciano Lopes

Homem ao mar

Se não me ouvir
Se não me ver
Se não me ler
Me beba,
sou a mensagem
da garrafa.

Casciano Lopes

19.12.24

Lampião de viajante

Registrei a luz
pra lembrar de que
estar só não é escuridão...
a gente tem que acender,
onde estiver
e com quem estiver.

Casciano Lopes

Oferecer flores

Se por desmantelo ou descuido
uma flor me cair dos cabelos,
recolha com cuidado,
pendure na alça da bolsa,
na lapela do casaco ou
carregue dentro de um solitário 
precisado de jardim...
meus cabelos seguirão com o perfume,
despidos da flor, calvo em seus canteiros,
mas em constante lugar de plantação.

Casciano Lopes

Postagem

Escrevo...
ainda assim,
o meu delírio
diz que vale a pena.

Casciano Lopes

Emocionado incorrigível

Não perca a esperança por ser romântico, por oferecer melodias sem saber se sabe dançar o ouvinte, por adoçar demais a bebida que vai molhar o coração dos degustadores da emoção que você sente.
Um dia passará na rua que te atravessa um carente de práticas apaixonadas, parará na faixa do cruzamento, estenderá as mãos e pedirá ao seu demasiado estado apaixonado que o ajude a atravessar a vida.
E todas as placas de sinalização acenarão que seu entusiasmo salvou a estrada de alguém de colisões.

Casciano Lopes

18.12.24

Alinhada

Aqui na minha linha,
nada é mero acaso e,
se fosse,
ainda restaria a poesia,
que dispensa o papel se for preciso,
mas nunca desperdiça a tinta.

Casciano Lopes

Eu não sei o que encontro quando abro a porta...

Às vezes levo uma lufada de vento que constipa minha decisão de abri-la, outras vezes, fogem de mim pensamentos que eu mantinha em cárcere privado, vai cambaleando na ventania até uns aborrecimentos que eu alimentava em minha mesa de madeira rústica, marcada de copos suados de outrora. Há sopros fortes que, inclusive, apagam as lamparinas antigas que fazem luz no meu casebre de passar como um café, a vida.
...Mas eu abro a porta.

Casciano Lopes

17.12.24

Servido em prato fundo

Diante da agenda dos dias me apresso,
corro como se ainda fosse menino,
mas é na madrugada que desacelero o calendário,
sento comigo pra encher de prosa os pensamentos e
me descubro mais velho
quando vejo o relógio sem pressa,
comendo minutos como se me devorasse.
E eu, num mundo de suposições,
espero as horas como quem espera
uma realidade menos apressada.

Casciano Lopes

16.12.24

Somos dias

As tardes ficam na gente.
A gente também fica tarde,
depois anoitece e dorme.

Casciano Lopes

À sombra da esperança

Onde nasce a vontade
pode crescer tudo;
até a capacidade
de quem só conhece
a coragem.

Casciano Lopes

Só perfumado

Fui juntando ao longo da vida uns perfumes que me acentuam na caminhada. Posso não ser percebido quando passo, não notado quando chego ou não sentido quando saio, não importa; o indispensável é que eu me note, me torne cada vez mais inspirado nos aromas que se avolumam em minha pele. Sei que levo de cada lugar e de cada pessoa frascos miúdos de essências caras, fragrâncias únicas e que, ao longo dos dias, não me pesam, ao contrário, me flutuam o corpo de percebimento, me transformam em portador de tanta gente inesquecível, tanta realidade servida em vaso de flores, tantos sonhos acontecidos em tons secos e amadeirados de florestas, que já nem sei se sofro, penso que só vivo... em marcantes notas de perfume.

Casciano Lopes

Bastaria

Basta um sorriso no rosto
e uma flor no canteiro
pra chamarmos a vida de jardim.
Basta olhar encantado o dia
e guardar a varinha de condão da infância
pra chamarmos a vida de magia.
Basta...

Casciano Lopes

Fazenda de cuidados

Havia uma paineira na porta de casa, um batedor de roupas ao fundo, um forno de barro a direita, cerca dividindo o pasto, poço de bater papo, galinhas no terreiro, poleiro, pés de amoras espalhados, terços, novenas, fogueiras, bailes na casa da Da. Teresinha, charrete marchando pra cidade, grama de quarar, arame de estender anil, lata de ferver roupa de roça, torrador de café, moinho, pilão, rádio de parede, tara de pão caseiro, taiada de queijo, fogão de lenha sempre quente, água de benzedeira, cochichos de compadres, risadas de comadres, cachimbo, prosa e fumo de rolo, arruda na orelha e canivete no bolso, enxadas embaixo da casa e santa na parede da sala.
Fui cercado por esses cuidados enquanto crescia... e o que lá havia, hoje há em mim e, sabe tanto sobre quem sou que já não sei se mudei de lá um dia.

Casciano Lopes

Intérprete do sei

O mar sei todo; 
do seu sal,
das marés,
das ondas,
dos horizontes que iludem a distância,
da lua que se penteia nas suas águas,
do canto das sereias...
sei.
Até das juras na praia,
das caravelas e marinheiros;
seus pactos,
sei.
E mesmo quando o mar
mora longe de mim
sei de sua pacífica língua
em agitado vocabulário,
embora ele tenha segredos
que não me conta
porque molha o papel
antes que eu tome nota.

Casciano Lopes

E porque sou minha casa

Eu posso recomeçar milhares de vezes, posso retomar uma viagem, um sonho, um encontro marcado em inúmeras tentativas...
O que não posso é me perder no processo, esquecer quem sou, quem fui, quem quero ser. Não devo me descreditar além do que suporta minha autofidelidade, me adoecer por falta do remédio caseiro; aquele que cresce no quintal de casa, que tem o cheiro da intimidade comigo, que divide o espaço dentro de mim com a memória do meu endereço pessoal - que tem residência fixa na minha experiência - e que me diz que sou tão vulnerável quanto uma casa no vendaval, mas tão seguro quanto ela quando fecha suas portas para descansar, mas que as reabre todos os dias pela manhã porque acredita na insistência... a vida insiste e é pra quem insiste sem se perder do caminho, mesmo que retomado dezenas de vezes pelo mesmo caminhante.

Casciano Lopes

5.12.24

Hospedo passarinhos

Tenho passarinhos espalhados pela casa em que vivo. Moram comigo, desde que nasci, vários deles. Habitam gavetas, povoam a biblioteca, enchem a cozinha de cantoria; parecendo ditarem caderno de receita no que é partitura, calam quando passam pelo meu quarto pra ensinar as noites a dormir, madrugam próximos ao bule, piam sobre o sarilho pra animarem meus braços a buscar água.
Vez ou outra encontro filhotes nos meus bolsos e, não raras vezes, outros se enroscam nos meus cabelos. A estes devo as boas ideias, coisas que eles me cantam em segredo e que aprendi traduzir ainda filhote.

Casciano Lopes

4.12.24

Reserva de naufrágio

Alguns saberão lidar com a idade, com suas imperfeições ou causas de suas escolhas...
Outros não, afastarão pessoas pra manter seus problemas fora de foco e atribuirão ao outro o motivo do seu silêncio, só por medo de gastar palavras.

Casciano Lopes

Quando tudo chegar

Quem vai estar lá quando meu lenço encharcar ou quando secar a botija que mora perto do rio?
Quem vai rir comigo quando o mar correr lá pra casa ou quando ficar deserta a praia pra eu me esticar sem roupas na areia?
Quem?
Mar, rio, terra rachada ou pele rasgada de tempo, no corpo molhado de canseira ou na alma quase pronta bronzeada de sol... quem vai estar lá, além de minha vontade?

Casciano Lopes

3.12.24

Milagre da pergunta

Gosto de me hospedar onde mora a dúvida, assim, com a convivência vou entendendo que nada nesta vida garante a certeza; que os dias intercalam temperaturas, que há manhãs ensolaradas que carregam tardes chuvosas, que tardes nubladas despedem-se para que noites estreladas ocupem o palco, que semanas difíceis são precedidas por feriados de santos, que pessoas nascem como motivos, enquanto outras morrem por falta deles no mesmo dia.
A vida é um 'não sei' cheio de certezas.
Não saber, achando que sabe, traz a opinião; sei disso... Porém a dúvida me faz buscar a resposta, e encontrá-la não deve ser a meta, deve ser o motivo que me tira da inércia para a ação.

Casciano Lopes

Por fim, que eu saiba ser etéreo

Que eu saiba calar
quando passar o vento.
Que eu saiba me despir
quando a chuva bater na porta.
Que eu saiba controlar a febre
quando for vizinho de um vulcão.
Que eu saiba nascer todo dia
e brotar se precisar de chão.
Que eu saiba ser forjado
sem perder o fio da lâmina.
Que eu saiba durar o necessário,
feito madeira que se empresta aos anos.
Amém.

Casciano Lopes

A gente quer ficar

Na vida e que ela não se acabe.
Nas pessoas e que elas não se percam de nós.
Nas festas e que elas não saibam findar.
No riso e que ele desconheça o seu contrário.
Na melhor idade e que saibam disso
todos os sentidos, a memória e os joelhos.
No fundo queremos motivos pra negociar...
porque a gente quer ficar.

Casciano Lopes

Onde tudo vira mar

O mar açoita a rocha e segue seu caminho, lambe a areia da praia, quebra ondas e decora a orla; não porque seja perverso ou prepotente, mas porque é mar cumprindo sua missão.
A rocha também está lá nas encostas cumprindo sua tarefa, seu caminho e ao que se destina... resignada.
Também somos um dever, uma realidade no cenário... um pedaço de areia, um braço de mar, uma paisagem em movimento, uma 'pedra fundamental' na construção da vida em curso.

Casciano Lopes

Trocamos olhares

Acho que fiz o curso de cabeleireiro só pra cuidar dos cabelos dela.
Me formei em 2010 e foram 10 anos cuidando daqueles cabelos...
Ela nunca tinha ido a um salão, feito um penteado ou coisa assim.
Por uma década, pintei, hidratei, cortei, escovei, fiz penteados que nós dois amávamos os resultados.
Tivemos muita prosa naquela cadeira, no tempo das colorações. Muita troca.
Em 2020, quando já não mais pintava seus prateados fios, fiz seu último corte... me permitiu cortar bastante além dos poucos centímetros de sempre. Concordamos em fazer um 'batidinho na nuca', vulgo 'escovinha', pra não precisar raspar por conta do processo quimioterápico; ela e eu nos doeríamos sem medida e além da causa, dado o estado dela, acordamos manter toda a nossa cumplicidade naquele último corte.
Dessa vez não trocamos uma única palavra, apenas consentimentos.
Fiz com ela ali uma viagem ao passado, devolvi aquela imagem da mãe de minha infância, de cabelos curtinhos e vaidosa... quando terminei o corte, levei a cadeira de rodas dela diante do espelho e, ali, nos olhamos profundamente nos olhos refletidos e nos entendemos mais uma vez. Depois disso tivemos poucos últimos olhares de um pro outro.
Mãe... de lá pra cá, nunca mais cortei um cabelo.

Casciano Lopes

28.11.24

Dispostos

É preciso se estender
pra quarar nossos corpos
na luz que viemos pra conhecer.

Casciano Lopes

Digo de mim

Sou filho do riso e do sim,
neto dos casos bem contados
e das lendas cheias de verdades,
irmão do encantamento e da disposição,
pai do carinho que me adotou,
avô da coragem que pede segunda chance,
tio da esperança em forma de gente destemida,
marido do acolhimento e do amor capaz de ser céu e asas
pra me dar conta de que sou abastado,
nada me falta e que saibam todos de minhas posses.

Casciano Lopes

Cidade emocionada

A história caminha por nossos andares, senta-se em nossos bosques e constrói bancos de passagens em nossas praças, visita as avenidas que nos cortam, viaja lenta pelas luzes de direção nas calçadas, pisa nos acostamentos de nossa razão como se desfilasse corredores sem explicação... A história meu amor, é o que viemos pra contar sobre a emoção, é a emoção que fundamenta nossos alicerces, que nos faz prédios... iluminados ou não; a emoção.

Casciano Lopes

27.11.24

Rotação e translação

A gente atravessa o mundo,
não porque quer ver o outro lado apenas,
mas porque estar vivo gera um movimento
como o do planeta Terra,
e como o planeta quer ser habitado...
ninguém vive isolado,
sem ser um lugar de histórias.

Casciano Lopes

Vogais, consoantes

Meu bem,
só peço que grites quando o barulho da dor
quiser se alojar nos cantos do teu silêncio...
a dor do mundo farto de displicência,
da vida insuficiente diante do tamanho da mudez
que não fala,
porque gastam-se palavras nunca suficientes...
Grite.

Casciano Lopes


Enlevo

Nunca fica antigo
o que o encanto toca,
o passado bem amado
segue sem ser amarrotado,
vestindo como uma luva
em qualquer tempo.

Casciano Lopes

23.11.24

Semeadura

A gente não está sempre onde gostaria de estar, a gente não está muitas vezes com quem faria especial um momento, a gente nem sempre vai poder saciar uma vontade ou dedilhar um desejo.
Quase nunca...
A gente não...
Mas, sim, a gente pode fazer a diferença onde está, olhando o entorno da própria existência e arrancando um motivo como quem arranca cenouras da terra; que não vê o produto, mas que sabe que ele existe... 'se plantou'...
Somos terra buscando sementes, água, sol e mãos que cuidem; mesmo que sejam as nossas.

Casciano Lopes


21.11.24

Qual sua altura e peso?

Nós moramos em tantos lugares ao longo da vida; improváveis, impensados, insuspeitáveis moradias que mais parecem esconderijos.
Nascemos e nos mudaremos algumas ou inúmeras vezes durante o tempo que viemos para gastar.
Da primeira a última chave, os lugares inimagináveis nos proporcionam pessoas e histórias, vistas privilegiadas compactadas em janelas ou espremidas e apagadas em muros de divisas.
Moramos...
Talvez numa vivência de hóspedes, de emprestados ou titulares, não importa... moramos.
Importa viver no endereço mais caro, no mais intransferível direito de posse por usucapião, sem o título de propriedade definitivo; possuir sem ter, e mesmo assim, não querer se mudar de onde nascemos.
Que nos custe apenas a descoberta, o reconhecimento diário de cada cômodo, de cada paisagem e, que seja larga a fotografia, que haja fartura de luz e que os corredores nos apresentem todo dia um motivo para zelar da casa que levamos para mudar de mundo, o nosso mundo que viemos para construir e mudar. E que quando não ficar a permanência do domicílio que não era fixo, fique a certeza do zelo e que as paredes gastas sejam tintas para contar as cores que fizeram nossas mudanças.
E que mesmo sendo transitório o nosso tempo, provisório o nosso corpo e irremediável a nossa estadia curta, que sejamos um bom lugar de morar.

Casciano Lopes

20.11.24

Memórias que sei

Sempre fui bendito.
Ainda bebê, nos finais de tarde,
meu avô me balançava nos braços,
cantarolando canções
que hoje sei que me valseiam na vida.

Casciano Lopes

Calado incomodado

Coisa barulhenta é o silêncio...
Arrasta os móveis da sala do meu peito,
arranha meus discos antigos da saudade,
passa a noite revirando o sótão da memória,
vive de tamancos caminhando por meus olhos,
e ainda, se atreve a encher meus lábios de psiu.

Casciano Lopes

Nós e eles

Todos podemos cruzar as distâncias
que nos separam dos ideais;
mesmo que em distintas velocidades
e particulares sentimentos de lonjuras.

Casciano Lopes

Movimento

Eu posso voltar, posso mudar.
Não sou uma coisa estática.
não posso endurecer jamais.

Casciano Lopes

19.11.24

Do que me devolve

Prezo as andorinhas que me aparecem no peitoril da janela do 10° andar sem aviso prévio para cantar, elas me permitem lembrar do que não previ e, ganham prioridade porque me roubam de mim.

Casciano Lopes

Canteiro de obras

Cresce em mim uma espécie de paisagem, um Boulevard.
Construções nascem nos corredores do meu pensamento e raízes juntam-se aos meus pés formando canteiros.
Nasce todo dia um pedaço de mim, cresce ainda minha obra.

Casciano Lopes

18.11.24

E me nega

Só sabe de mim o rio que atravesso.
Aquilo que me nego, não me vê passar.

Casciano Lopes

Palavras... palavras

Sou a notícia que corre e o segredo guardado,
a garrafa e o mar,
a letra aprendida e as linhas comprimidas entre pautas...
sou o papel que veio pra dizer, calado ou falante...
só um homem lido.

Casciano Lopes


O espaço que existe em mim

Tenho me gastado voando...
Pensando em asas que substituem pés,
vou à lugares nunca imaginados, num voo possível.
Porque o pensamento tem o poder de compor alados refúgios;
se eu souber administrar a falta de chão.
O que produz a transmutação do caos,
não é a possibilidade do cenário,
mas a minha capacidade de criar céu
antes de crescerem nas costas as envergaduras planadoras.

Casciano Lopes

14.11.24

Do outro lado

Eu tenho um verso,
dito às vezes,
escrito,
lido ou não...
Meu lado inverso,
o avesso de minha exposição,
de tudo aquilo que guardo
entre as linhas por onde
me escrevo feito verso.

Casciano Lopes

13.11.24

Outro dia

Independente... se tapas ou carinhos, se sutis olhares ou borradas espiadas, se tintas discretas ou pincéis agressivos lambuzam a face numa indiscrição desmedida... Que vigore o entendimento de que só é capaz de fazer rir o que sabe rir. Chorar, nascemos sabendo, o riso não, ele é aprendido.

Casciano Lopes

Daquilo que eu sei

Eu amei passar por cada casa que visitei, me causou mudança saber que não eram minhas... e amar o tempo curto de cada passagem.
Tudo na vida é assim, a gente aprende e passa, e porque passa entende a razão, mesmo que doam as idas para distante das portas.
As coisas mudam de rua, pessoas inspiradoras da minha autoria escolhem o tempo todo outro endereço, porque precisam e eu preciso seguir cumprindo moradias e compondo janelas para que outros se debrucem nelas.
Sei que também mudo e, porque refaço meus lugares, construo outros motivos de continuar vivendo, sem perder nada do que senti e vivi em cada pessoa que passou por mim e em cada gesto que fizeram os portões, quando se abriram.

Casciano Lopes

11.11.24

Programação

Penso muita coisa para o ano que vem...
dentre as coisas que almejo,
a prioridade é ter sorrisos inexplicáveis.
A vida veio até aqui e irá até onde for,
porque aprendeu a sorrir,
e isso, dispensa explicação.

Casciano Lopes

Sinto, então vejo

Um teatro cheio,
música clássica,
uma ópera,
um balé,
uma gentileza gratuita,
uma flor oferecida
para quem desconhece jardim,
uma boa música que toca a porção divina
num corpo material e pequeno,
um sopro num gesto de vento
que toca a areia da praia...
Coisas que marejam o olhar.
A dor não merece o choro.
O que os olhos ainda podem sentir;
eles podem ver.

Casciano Lopes

8.11.24

Consequências em evidência

Também é caminho... sentar um pouco, dormir se for preciso, criar novas portas, passar por elas e cruzar outras pra descobrir que não tem fim e nem retrocesso a estrada separada pra nossa jornada, incluindo o descanso que ela nos pede.
Está tudo bem pausar o acelerador que cobra velocidade; reduzir a marcha não quer dizer desistência, assim como mudar de opinião ou de direção não significa dúvida, às vezes é só certeza mesmo... de que chegamos e partimos sozinhos e de que quando saímos da vida precisaremos seguir com as escolhas, apenas isso levaremos da vida... as que fizemos ou deixamos de fazer.

Casciano Lopes

Cura o viver

Um xamã medicou uma tribo inteira
quando aprendeu a ouvir o canto da floresta.

Quem escuta, aprendeu e entendeu a vida...
E sabe sarar a aldeia em que vive.

Casciano Lopes

5.11.24

Um quarto de insistência

Alguns sentimentos não passam nunca, algumas memórias desconhecem o tempo, tal qual o ontem que insiste em existir num espaço pequeno que mal cabe o hoje cheio de mim; um fragmento de tempo.
A saudade, dentre todos os hóspedes que carrego em minha pensão, talvez seja a mais perspicaz, vive criando motivos pra esticar sua estadia... chega arrastar móveis nos aposentos meus, planejando se instalar e se acomodar nos anos que acontecem num só dia dentro de minha sensação de não passar nunca.

Casciano Lopes


3.11.24

Ensaiei meu samba

sozinho... Sim, eu choro às vezes, principalmente quando preciso e não posso mais dançar... No passado eu sambava e diziam que muito bem.
A lágrima me rasga quando vejo que o possível trocou de lugar com o impossível sem que eu percebesse.
Eu não tolero os maus tratos de meu riscado o tempo todo, embora pensem as pessoas, que sim. Mas, não tolero a fraqueza em mim e, talvez por isso, a maioria acha que vendo uma positividade tóxica, quando, na verdade, ainda sou o mesmo do passo de samba, das longas caminhadas, das leituras, da escrita que dispensava revisão, da caligrafia bonita que se esqueceu de como segurar a pena.
Pena... tantas camadas em uma só palavra, e eu só sigo achando uma pena gastar o tempo que me sobra chorando a dança que não posso compor. Acho um desperdício desaprender tudo que o sorriso me ensinou em detrimento do esquecimento que a amargura provoca.

Casciano Lopes

1.11.24

Café da manhã

Ele arrumou a mesa com a delicadeza de quem preparava uma cama de núpcias. Nada extravagante nos valores, louças modestas e aptas, talheres simples e capazes, toalha até um tanto gasta, que amparava uma jarra de suco, um pequeno vaso de flores, copos dispostos de forma ensaiada que mais parecia uma 'ordem unida', uma cesta de pães quentes e outra de frutas frescas que acenavam um desjejum.
O apetite, que primeiro sentou-se à mesa, flertou com os coloridos provocadores da fome aguçada. O capricho, que estava na cabeceira da mesa, encheu os olhos de vontade e o perfume sedutor vindo da xícara de café seduziu os amantes que debruçaram-se diante de galanteadora proposta, como quem desnuda o outro. Foram destampados os potes de geleia e manteiga, o queijo como mestre de cerimônia postou-se pronto para a celebração. Foi repartida sem pudores a saliva provocada pelo desejo, degustaram-se os apaixonados... Eles e a mesa de pernas fortes, bem posta feito cama, num deleite despudorado.

Casciano Lopes

Um apoio, um braço

Eu estou caminhando...
Com as tartarugas, mas caminhando.
Não mais com os coelhos, caminhando.
Mas caminhando estou.
Hoje importa o passo lento que faço,
mais que o embaraço
de quando me reclamam agilidade nas ruas,
porque agora, quando nelas caminho,
é como se do mundo eu ganhasse um abraço e isso,
por si só, afasta qualquer cansaço.

Casciano Lopes

Vivi depressa

A consciência do tempo pediu pressa e cresci ainda menino, amadureci jovem e agora, a fluência pela mesma consciência, pede calma para a tal maturidade do tempo para que eu possa refazer alguns caminhos quase antigos, afim de, sem aceleração alguma, vivê-los tão somente, sem experiência alguma.

Casciano Lopes

Quem seremos

O sol que reflete em nossos segredos,
como quando entra em casa,
esclarece quem de fato fomos
e que não deixamos de ser.

Casciano Lopes

Esquecimento

Embora busquemos o tempo todo memórias inesquecíveis,
há tanto que gostaríamos de esquecer!
Vivemos remendando retalhos,
buscando o que nos vista de memorável.

Casciano Lopes

Febril

Quando a febre aquecer o mar dos olhos e neles houverem mais mares do que suportem as marés, talvez rasgue-se a praia do rosto para caber tanto sal. É preciso que se rompam algumas comportas para que a gente não desapareça afogado em tanta água salgada.

Casciano Lopes

O que não e o que passa

Eu não vou esquecer que a vida é algo provisório e que, assim sendo, tudo passa e passará... não posso sofrer de eternidade aqui, não aqui; embora batam à minha porta, todo dia, vendedores da tal perenidade.
É fundamental manter saudável a pessoa que vive em mim, a que mora no corpo falível.
Não creio que o corpo afetado possa ferir a pessoa que vive nele, não sem minha permissão.
Preciso defender minha integridade.
E disso, quero morrer capaz.
Preciso querer.

Casciano Lopes

30.10.24

Invenção de verbo... 'Vidar'

Onde a vida fique de bem com o espelho,
onde ela possa sentar-se com a verdade
sem vergonha do passado,
onde na dança das cadeiras;
a mentira fique em pé.
A vida... onde ela saiba contar histórias,
que saiba rir mais de si que dos outros,
que goste mais de ser remetente
que destinatária. Onde há vida...
É lá que quero estar.

Casciano Lopes

Bilhete tarde

Eu não pude chegar mais cedo,
o relógio bem que gritou,
mas o pulso fingiu-se de surdo...
Eu não pude.
Quis correr, e quando quis,
já era tarde
no horizonte das minhas pernas.
Você e eu um dia entenderemos
porque meus pés dormiram tão cedo.
Talvez você queira saber...
que eu não pude.

Casciano Lopes

Poema duro

Talvez a dor cesse da noite para o dia.
Talvez do dia para a noite, cesse o desatino.
Talvez a força bruta da dor perca a força.
Talvez vire fraca a dor forte de ontem.
Talvez o amanhã venha brando, ou não.
Talvez nunca.
Talvez...
Certo é o verso que me faz candura
e me provoca brandura apesar de doer;
o que vejo passar sem saber
se verei ou passarei.

Casciano Lopes

28.10.24

Agenda ocupada

Eu estive sempre ocupado com o que podia fazer, talvez por isso, tenha me faltado tempo para a amargura... ela se ocupa demais contabilizando vontades e, displicente, vive aborrecida. O cálculo do que falta tem resultado sempre menor do que o que sobra.
Me consumiu tudo o que me fartava, de modo que jamais faltou ou falta alguma coisa.
Já me gasta o que tenho, me basta.

Casciano Lopes

Direito ao belo

Nada pode ofuscar a beleza se há um sol na nossa vida, os invernos de nossa alma se derretem e nossos campos de acreditar retomam sempre a jornada que o calor promete, quando cedemos ao mundo nossa paisagem.

Casciano Lopes

27.10.24

Parto

Passava por ali sem ser notada,
todo dia passava.
Sentava-se nos degraus dos dias,
descansava semanas.
Prometia e cumpria...
Anos e estações,
sujeita a passos,
mas também cama
e berçário de sonhos.
Parecia incubadora,
merecia o título da terra gestante...
gestação.
E de repente eclodia;
num viajante,
num passante,
num olhar atento
que vigiava seu estado de admiração...
A vida.

Casciano Lopes

Embarque de vivências

Há portais em nossa experiência humana,
passagens que nos exigem inteiros...
nossa viagem não é interrompida
pra que possamos ensaiar o novo cenário.
Metades não cruzam pontes,
porque nesta passagem não se paga meia.

Casciano Lopes

25.10.24

Porque somos lugares

Não tenho dúvidas que habitamos os lugares na mesma proporção que eles nos habitam... Pessoas são lugares, caminhos na multidão são lugares, silêncio e banco de espera são lugares... o outro que me continua e a minha ida na sua direção são lugares.
Moramos todos no mesmo encontro; no abraço que damos em tudo que sentimos entre chegadas e partidas.

Casciano Lopes

Era uma casa...

Há cidades inteiras morando no quintal do mundo e, se moramos no mundo, somos também a casa dele... somos formados de múltiplos endereços. Se sem muros, compreendermos essa geografia, mais que destinos, nos tornaremos cartões postais da vida.

Casciano Lopes

A viagem e o observador

Na viagem que a vida me propõe, meus pés tocam as folhas do caminho com a mesma reverência dos meus olhos, quando olham as mesmas folhas nas árvores antes de caírem.

Casciano Lopes

22.10.24

Ajuste de asas

No fundo,
vou experimentando os voos...
se rasos, altos ou profundos,
tento aprender;
o vento das alturas,
sua direção no tempo de solo
ou a sua liberdade
provocada em minhas funduras.

Casciano Lopes

Aos poetas

Que as pedras
continuem no caminho
de Drummond.

Casciano Lopes

19.10.24

Aos que gritam calados e sabem ler silêncios

Sempre fui exagerado... até hoje gosto de abraço demorado, de beijo que sabe prometer, de gente que não vai embora, de sorriso largo e espontâneo. Aprecio o muito das coisas.
Mesmo do silêncio eu tiro a contemplação que ele permite, e gosto de quem sabe calar do meu lado pra assistir a meditação na tempestade.
O café quente, a cerveja gelada e o sentimento... sem anestesia, por favor.

Casciano Lopes

18.10.24

Feito sem adeus

A gente não é treinado para os finais... somos preparados o tempo todo para a eternidade das coisas e pessoas.
A gente sabe que tudo acaba, mas finge não saber para que o mundo nos caiba e caiba em nós.
A gente brinca de 'para sempre', para não levar tão a sério a dureza das partidas e das horas não mais divididas.
A gente não possui, mas quer ser possuidor... seja da alegria provocada em riso alto ou daquela presença calada... possuir; momentos e suas frações de perenidade, e que não padeça jamais de fins.
A gente acaba como as coisas, volta pra gaveta ou troca de armário.
E porque a gente é humano, talvez pareça uma espécie de santo, só que andamos todos carentes de um pouco do devaneio de que dure o milagre de partilhar.

Casciano Lopes

Ganha-se com o tempo

Quando perdi, e perco todo dia, algo no processo dessa vida; quando esqueci minha audição em falas passadas, em mesas de reuniões e em discursos inflamados, não voltei para buscá-los... ouvidos.
Me adaptei e só hoje compreendo que no mundo das perdas ganhei o silêncio. Fui treinado para apreciá-lo e descobri que no fim da tarde, da lida, da noite, das semanas idas... o que a gente quer é não ouvir gritos e nem pautas de exigências.
A gente quer mesmo é o descompromisso calado, a inteligência sem palanque.
Aprovar o silêncio é o que a gente aprende, apesar do tempo que, de quando em quando, faz barulho.

Casciano Lopes

Fundo de olho

O olhar delicado
permite a dor,
mas inibe seu grito.

Casciano Lopes

15.10.24

Meu povo em meu Tempo

Procuro o tempo nas escavações que faço e nas expedições que organizo... pequenas pás me auxiliam na busca; pra não machucar segundos e nem ferir de pressa os minutos achados. Pincéis limpam horas passadas pra que saibam contar com ponteiros no papel da minha alma, feito caneta; depois de limpar a poeira de forma protegida, pra que o vento não carregue, e pra não virar pó tudo o que meus ancestrais disseram sobre os dias.
... E é só assim que os anos se acalmarão em meus séculos, depois de saberem ouvir o tempo deles.

Casciano Lopes

Por isso cavo

Foi cavando o que eu acreditava abrigo que enterrei tudo o que me colocava na chuva, tudo o que me fazia alvo dos bombardeios...
Agora procuro me molhar. O telhado já não faz tanta falta e as bombas em minas terrestres não amputam mais; não omitem a vontade da descoberta, do interesse por mim e por tudo que guardei, mas não devia.
Meu refúgio, hoje, é exposto no tempo da exposição, escancarado nas cercas de arames farpados, assim, não peco com a ausência do esconderijo num mundo que exige presença pra remissão... onde há perdão pro tempo descoberto.

Casciano Lopes

13.10.24

Estações

Eu sei que andei distraído...
Muitas folhas de árvores caíram no passeio e eu nem observei o outono que se deitou na estrada.
Caído no banco da praça, um botão de rosa quase gritou a primavera e eu, ocupado com o ajuste dos óculos, nem notei.
Eu sei...
Que enquanto tremia de inverno: ele passava dentro de casacos baratos e caros diante dos meus olhos que esperavam o verão.
Eu...
Verão e tantos verões arderam nos meus quintais e eu poupei a pele, escondi a sombra nas mãos pra, como lenço, banir o suor da minha febre.
Sei...
Que a fuga que me fez caça, hoje me faz caçador...
E às vezes me encontro.

Casciano Lopes

11.10.24

Do tempo que fica, desapegar

O tempo
que me faz passar
diante de tudo aquilo
que não passa...
o que ensina?

Casciano Lopes

Rosto em brilho

Não pude ver a chuva
que lavou a rua que moro,
porque estava ocupado,
encerando a casa que vivo.
... disse o sorriso pra lágrima.

Casciano Lopes

8.10.24

Tristes tempos

Vivemos tempos em que antes de qualquer pessoa, se apresenta: uma bandeira, uma militância, um fanatismo, uma pauta, um 'lugar de fala', um radicalismo estrutural, uma visão política egoísta, uma religião excludente, uma razão sem consideração pela emoção da massa, um devaneio vendido como sonho, uma mentira travestida de verdade absoluta...
Tempos difíceis, em que o amor e a solidariedade são pessoas no fim da fila, atrás da arrogância e da ignorância... dificilmente apresentadas e convidadas a entrar pra ensinar a nossa casa de como é divino ser despojado de rótulos equivocados. Somos humanos e não outdoors publicitários.
Não estamos aqui pra convencer ninguém, estamos para compreender o outro e a nós mesmos, e voltar pra casa.

Casciano Lopes

Sabor

Aprendi ainda pequeno, o amor pela cozinha... em fogão de lenha e forno de barro. Vi minha mãe dando conta de pão, pamonha, curau, queijo, requeijão, manteiga de garrafa, doce de leite, doce de abóbora, arroz doce, canjica, galinhada, pirão, polenta, bolo e o plural das coisas que se faz a partir do fogo, da boa vontade e do amor por dividir sabores... fui observador do giro do torrador de café sobre as brasas, do moinho de alpendre preparando o pó e do pilão do terreiro socando o colorau. É, tive provas de que é construído o que se leva à mesa. ...E o amor é construção, que se serve em abundância como tudo que não pode faltar.
Fui apurado feito doce no tacho.
Cresci assistindo minha mãe em fogão e mesa, servindo risadas e bom humor, bom papo e conselhos em torno dos pratos que fazia, com o gosto de quem sabia que o tempero da vida pede o preparo da dedicação pelo outro e que o amor servido mata a fome e fortalece o crescimento humano... A sabedoria de quem serve é o bem que jamais esvazia o celeiro e registra pra sempre a saciedade no livro de receitas da experiência sagrada que é dividir amor.

Casciano Lopes

Não localizado

Como ruas desconhecidas cortando a cidade, sigo como passante, objeto do imponderável que me transpassa e faz de mim, apenas um cidadão qualquer... um endereço na multidão.

Casciano Lopes

5.10.24

Contratando

É preciso alma boa pra morar nos prédios danificados pelos arranhões da guerra com o passado.
Que esteja intacta essa alma diante das marcas que causam paredes gastas... os combates da desesperança com a esperança.
Admite-se em qualquer tempo criaturas que possuam cores e, que elas saibam colorir sem omitir a velha tinta de contar o tempo.

Casciano Lopes

4.10.24

Amanhã, hoje não dói

Rio meus 54 anos,
porque é assim
que encontro sempre a dor
chorando sem lugar
na minha idade.

Casciano Lopes
03 de Outubro

Tudo bem? Muito bem, bem, bem!

Sobretudo, a alegria encaminha os encontros da vida, embora ela ocorra entre tantos outros sentimentos, simultânea ou isoladamente, eventual e até esporadicamente. Ela responde pelos embalos da coragem enfeitados com os laços do recomeço...
A alegria é simples.
Está na casa do palhaço, feita de lona e mudança, recomeça sempre; numa outra noite ou numa nova cidade... Não impede a legitimidade da lágrima, mas não proíbe a serenidade da graça. A alegria encontra o que o espanto esconde e ri quando descobre o pranto indo embora porque não sabe sorrir.
O rosto disposto ao riso é como o circo que não fica sem motivo, sempre haverá uma plateia esperando o abraço da alegria.
...E o choro sempre cede quando encontra um coração celebrador em festa.
Feliz vida sem a preocupação da idade, só de viver!

Casciano Lopes
03 de Outubro

2.10.24

Alegre esforçado

A alegria sabe fazer rir o cansaço,
porque o descanso
é por demais enfadonho e preguiçoso pra sorrir.

Casciano Lopes

Onde o sagrado mora

Ainda posso acreditar em mim...
o pior lugar é aquele de quem perdeu-se
dentro do próprio vazio.

Casciano Lopes

Procurando bem...

Alguns eventos trazem mais que mesa posta,
trazem a vontade e o olhar posto nos achados
dentre tantos escondidos.

Casciano Lopes

28.9.24

A velhice é qualquer tempo antes da morte

Não gaste a credibilidade que nasce limpa, com atitudes que gastam as idades e empobrecem a velhice antes da morte...
Acima de tudo, não seja mesquinho com o sorriso, gaste os abraços, abuse da generosidade, distribua afetos e, neste quesito, não economize; um olhar comprometido multiplicará os bens... os seus e os do outro.
Por fim, guarde apenas aquilo que não precisa de bolso, afinal, no fim de tudo, as roupas são desnecessárias e pra ir embora daqui, a gente precisa gastar a vida.

Casciano Lopes

24.9.24

Paleoantropomorfia

Vivemos situações que nos calam, imponderáveis decisões que assaltam nossa capacidade de celebrar a vida... Há tempos marcados de gritos mudos, onde muros com isolante acústico comprimem nossas vontades gigantes num mundo pequeno, onde medos murados nos fazem cativos da pouca coragem, outrora sem cerca e atrevida.
Há dias em que o plano caminho traçado por nós, rabisca falácias no discurso dos pés pelados ou calçados de estrada e que as falésias pervertem o planejado, arrancando suspiros molhados dos mesmos olhos que desenharam o retilíneo sorriso.
Sim... aprendemos a sorrir e, quando a lágrima quer provocar erosão nas nossas encostas, furtando a geografia da gargalhada ou o discreto objeto de riso do canto dos lábios, tapamos um canto de olho pra estancar a chuva barulhenta em troca daquela que lava a face da vida sem consumir com as rugas... só lavando mesmo o silêncio, pra depois secar as palavras nelas encravadas, quando o bom vento soprar e fizer varal dos vincos estirados feito pontes nas nossas idades... porque somos todos cidades em busca de mapas, destinos e pousadas em que descansam abrigos...
E que jamais mintam as intempéries, mas que também professem uma intempestiva calmaria, com a verdade brotada na nossa mania de provocar escavações, só pra provar que há embaixo das ruinas, motivos pra história contar nossos lugares.

Casciano Lopes

23.9.24

Certidão de tempo e vida

Se dormimos 8 horas por noite, ao final da vida teremos dormido 1/3 dela, ou seja, 10 anos de cada 30... pense nisso! Não é sobre dormir menos, é sobre estar acordado no tempo de chão, afinal, estrada não é cama e, a ação dos atestados pede o pulso dos olhos abertos.

Casciano Lopes


Viver enquanto vive

Penso que caminho no campo minado da vida, não pra evitar as explosões, mas pra aprender sarar as amputações sem deixar de caminhar... e no bombardeio, saber que as trincheiras também matam.

Casciano Lopes

18.9.24

Que seja um aperto de mão

Nada do que já me fortaleceu
pode ser esquecido...
de um sorriso de mãe,
do acaso de um sim ao caso de um não,
nada pode ficar sem abraço.

Casciano Lopes


Encantamento do não sabido

É o desconhecido que detém a mágica da vontade, que levanta antes de mim pela manhã e que me espera no fim da tarde, acreditando na minha curiosidade munida de audácia...
Porque desde a infância sabe-se que a velhice só é promessa para os penitentes audazes que alternam conhecimento e desconhecimento, como se ambos fossem iguais, a diferença está na magia que um tem e o outro não.

Casciano Lopes

Estado de céu

Do menino, guardo principalmente o cavalinho de pau, transporte que sabia o caminho do céu. Talvez por isso, hoje divido meu tempo entre aqui e lá, onde sou amigo das estrelas que me deixam guardar meu cavalinho.

Casciano Lopes

16.9.24

Compulsória pacatez

Eu não tenho mais a pressa, desde que fui submetido ao desleixo que ela, a pressa, me causou... a pressa de saber tudo, a de responder até antes da pergunta, a do compromisso que marquei com pressa... a pressa que me fez presa da calma imposta que, sem nenhuma pressa, hoje me agenda noites de sono, responde antes que eu seja questionado pelos curiosos que querem saber quem, do que fui, ainda sou... Quem sou? Só um homem sem pressa quitando antigos prejuízos.

Casciano Lopes

14.9.24

Perda de tempo

Quando a agenda dos dias pede a pressa que você nem tem mais, quando a demora se muda pra dentro dos olhos e você já nem sabe esperar tanto... é preciso contar o tempo sem ponteiros, só com o pulso mesmo, com o que ainda faz pulsar tudo que não precisa de relógio.

Casciano Lopes

Enquanto vivo

A minha decisão de viver,
nada
tem a ver com vida ou morte.

Casciano Lopes

Haras particular

Eu queria que doessem menos as ferraduras cunhadas nas solas de meus pés... eu quis, quis muito!
Ainda quero caminhar, marchar talvez, talvez trotar... e os terrenos pedregosos pedem mais cavalos na minha potência, enquanto eu, continuo querendo estrada, mesmo sem a sensibilidade das solas.

Casciano Lopes

8.9.24

Primavera

Duvidei chegar até aqui inúmeras vezes,
mas jamais me omiti de querer.
Importa saber que o 'porquê' pergunta pois não sabe,
e eu não preciso responder se cumprir a vida,
tão somente, satisfazendo o seu 'para que'.

Casciano Lopes

7.9.24

Promessas

As juras duram até que as limitações te limitem,
até que teus faróis sinalizem parada.
Duram as falas até que tua pauta concorde verbos,
até que o discurso não cometa o descalabro
de perder as margens.

Casciano Lopes

Por onde anda?

Aquele amor capaz
de dobrar as esquinas da cidade desconhecida
e guardar no bolso as avenidas vazias de calor,
aquela flor sem vaso...
capaz de dar perfume no mais solitário jardim.
Por onde anda?

Casciano Lopes

6.9.24

Na labuta e no cochilo

Chegar até aqui me custou a solidão dos meus sonhos e, por mais que tenha sonhado, precisei dormir tantas vezes pra que eles despertassem... Porque o que adormece na lida é o cansaço, não o sonho; esse padece só, e ainda assim, sabe acordar pra não morrer.

Casciano Lopes

Impressão

A gente deixa digitais em tudo que toca, numa arma de por fim ou num lenço que embala começo, a gente deixa digitais, numa taça de brinde ou no sangue vertido na lágrima, no copo dos olhos, a gente deixa digitais.
No corpo da gente e nos corpos dos outros, quando a gente lava os pequenos ou grandes, nascidos ou mortos, a gente deixa digitais.
Numa cama estendida, numa roupa alvejada, numa palavra amarrotada, passada ou não, no ferro com ou sem vapor, a gente deixa digitais, naquela camisa branca ou naquele casaco preto, a gente deixa digitais.
Na roupa nova ou velha, nas de núpcias ou de luto, da luta... a gente deixa.
Digitais.
Naquele bolo de festa, naquela rua da pressa, naquele quarto da calma, naquele banho de chuva, naquelas mãos com ou sem flores, a gente deixa digitais.
Na água que resta, na gana pouca, suada ou não, ou na fé da cana que promete, tanto a sobriedade do doce quanto o bêbado cálice da cachaça. Cale-se! A gente é só digital...
Na boca calada da face de expressão, no alarde feito com ou sem razão, naquele pão dividido ou negado, na passada que a vontade dá ou na covardia dos pés quietos, a gente deixa digitais...
E vira culpado do que fez e do que não fez, vira procurado porque marcou presença ou lonjura... e se assim é, que seja encontrado o motivo que justifique os dedos que ficam ou que partem sem mais tocarem.
Porque digital é coisa 'quase crime', que se a gente não comete, já cometeu ausência e, só por isso... é criminoso.

Casciano Lopes

3.9.24

Psiquê

Um corpo doente consegue ser orientado por uma mente saudável, já uma mente adoecida deixa sem valia um corpo são, confundindo qualquer brejo com oceano.

Casciano Lopes

2.9.24

Porque somos casa

Todos temos dias de cozinha,
de área de serviço,
de quarto
e da varanda que nem temos...
gosto dos dias de sala,
onde faltam assentos pra prosa
e onde,
nos dias de pensamentos,
eles se esquecem cochilando
na poltrona.

Casciano Lopes

Sossega

Silencia a mente
quando o barulho
da vida
bagunçar teu olhar.

Casciano Lopes

26.8.24

Rosto em palco

Todos temos silêncios guardados, segredos contidos e dores reprimidas... Mas nem todos sabem guardar lágrimas pra não borrar o lado da vida que pede face pintada, de capacidade de fazer calar o grito do outro lado calado.

Casciano Lopes

Pose de altar

Os milagres esperam,
a todo momento,
um clique sem filtro, 
sem lente especial
ou olhar profissional,
apenas um atento
e humano registro.

Casciano Lopes

Ainda que

Ainda assim, apesar do dia lá fora, do sol que ilumina o calçamento e do julgamento que a luz comete sobre tudo que se expõe... ainda assim, dentro de mim, a vida se mostra, mesmo que na sombra de guardar e de aguardar a sentença.

Casciano Lopes

A vida é um dia

Fui surpreendido com essa alegria de entender a vida como algo que encanta apesar dos pesares; um passarinho beliscando a rosa numa manhã despretensiosa, ou um sol, que se deita num fim de grama de uma tarde, sem intenção alguma de ser cama, viram motivo pra descansar a vista... e os olhos que doem, porque passa, entendem a dor feito o passarinho que sente penas e voa; porque o mais incrível não é fugir das transições do tempo, é cantar durante a viagem e olhar com olhos de quem vê o tempo todo voar...
o Tempo.

Casciano Lopes

Ontem de inverno

Dizem que está chegando a primavera; a árvore do quintal de casa, até ontem ressequida, hoje amanheceu em estado de brotos, e as plantas do passeio, ressentidas pelo frio, já ensaiam passos largos para o desfile dos apaixonados... Dizem até que será permitido o abuso de passear pela tarde, descalça, a elegância de braços dados com o desalinho, desprovidos das pantufas que fazem silêncio no assoalho lá de casa.

Casciano Lopes

O portão e o bilhete

Pensei ter chegado,
mas era uma partida
que fazia doer
meus pneus no asfalto,
por achar entrada
o que era saída.

Casciano Lopes

Passadas

Nem sempre o caminho é a fera...
Às vezes é o caminhante.

Casciano Lopes


Tudo exposto

Ainda há tempo de fazer florir um sol nas raízes que acreditam.

Casciano Lopes


Era uma casa

A casa precisa sim estar arrumada, as gavetas organizadas e, se possível, um vasinho de flores na mesinha de centro à espera de cheiro... Disse o corpo ao seu morador.

Casciano Lopes

Alar resiliente

Assim como os pássaros sejamos
capazes das estações suportar,
sem deixar as asas sofrerem
de pena.

Casciano Lopes

Objeto em foco

Bem mais que o sol que se dispõe a iluminar,
precisamos de corpo para oferecer ao milagre da luz.

Casciano Lopes

Lótus

Qualquer cenário exige dignidade na apresentação. É preciso flutuar sobre tudo o que nos desafia, caso contrário, não veremos flores, não seremos primavera depois de qualquer inverno e nem veremos o rio assentado para que possamos exibir nossas cores.
Vez ou outra teremos deficiências no caminho das águas, porém, delas faremos substratos para nossas raízes e quando o olhar pedir, teremos o que ofertar... Bem mais que a vergonha de não florir.

Casciano Lopes

Anu-branco

Deixa eu encerar tua passagem,
deixa eu brilhar tua porta de entrada
e iluminar tua saída...
Disse a coragem aos duros pés do medo.

Casciano Lopes

No fundo do raso

Na superfície de tudo aquilo que desconheço,
existem profundezas que me sabem todo.

Casciano Lopes

Faixa de areia

Eu sempre soube apanhar conchas na praia, elas vinham lavadas pelo mar... Sabiam muito mais que eu do oceano, entoavam nos meus ouvidos tudo o que ouviram e dos segredos, eu soube.
Me diziam das tormentas, trazidas histórias que caladas na areia ganhavam fala em minhas mãos... Também me contavam de calmaria, de veleiros em águas vestidas de imensidão e me diziam: cante e ajude soprar as ondas, tua praia pequena ainda cabe o mar que não sabes.
Soube.

Casciano Lopes

A própria travessia

Tudo o que nos conduz ao sacrifício, antes nos coloca na ponte de nós mesmos, nos confronta e nos enfrenta...
Não existe dor sem que nos atravesse a sua intensidade e durante os 'ais', costumamos encontrar, além da cura, nós mesmos.

Casciano Lopes

Pano zodiacal

O que desata o destino não é a compra da passagem, não é o embarque... é a paciência com que se manuseia o nó, enquanto descobre-se o velho mundo a espera de um novo olhar...
E aí, de repente, se desfaz em mãos o emaranhado de fios, formando sem magia as linhas que permitem pés munidos de vontade.

Casciano Lopes

Acordado o sonho

O que dá forma aos meus sonhos, não são os detalhes do capricho sonhado, é o quanto acredito neles acordado e quanto de disposição invisto na organização das paredes dentro de mim, pra que eu possa acomodá-los antes mesmo que se tornem reais.

Casciano Lopes

Instrua, reconstrua

Hoje eu vi um menino e uma rua
Um céu com lua e a crua casa...
Vi.
Casa da rua, tintas gastas
Clarão refletindo paredes nuas
Vi...
e pensei cores, o tempo delas
O pincel dado ao que espanta
E que possa em fuga, fugir o velho...
Vi.
O velho medo de ver menino
No olho da rua.

Casciano Lopes

Assim finalmente

A gente é só um começo sem fim,
um fim que dá sumiço pra começar outro enredo,
pra se enredar no meio de tudo que começa
pra nunca mais se acabar assim.

Casciano Lopes

9.8.24

Poças d'água

Tenho nuvens em mim
Carregadas nuvens, sopradas
Ventos que levam e trazem
Trovejadas, rajadas que se rasgam
Nuvens...
Águas armazenadas em mim
Em olhos de passar céu
Onde moram nuvens olhadas
Molhadas, encharcadas
Nuvens...
Quem me dera, chuvas
Que logo chovessem as nuvens
Que estancassem as previsões
Que fossem lavadas as permissões
Nuvens.

Casciano Lopes